
TALVEZ ALGUM DIA
eu tenha de escrever um livro sem a ajuda de outros, mas
espero que essa época não chegue tão
cedo, pois atualmente dependo imensamente das sugestões
editoriais de outros leitores. Sou profundamente grato a
meu amigo Tim Stafford, de quem dependi totalmente para
a leitura deste manuscrito em três rascunhos sucessivos.
Esse foi um trabalho de amor: antes das oportunas sugestões
de Tim quanto aos cortes necessários, o manuscrito
era cinqüenta por cento mais longo.
Tive também a felicidade
de participar de uma reunião de avaliação
de manuscritos junto com quatro outros escritores
Steve Lawhead, Karen Mains, Luci Shaw e Walter Wangerin
que me ajudaram a estabelecer o estilo da versão
final. Então em reuniões à parte, Walter
me desvendou alguns dos mistérios de como narrar
histórias. E estes outros também leram e criticaram
o manuscrito, dando-me conselhos valiosos: Elsie Baker,
Dr. John Boyle, Dr. Paul Brand, Harold Fickett, Hal Knight,
Lee Phillips e Dr. Cornelius Planünga.
Depois de eu trabalhar com base
no conselho de todo esse pessoal, Judith Markham, minha
editora em três livros anteriores, preparou o livro
em sua forma final. Judith proporciona uma rara combinação
de diplomacia, sabedoria literária, bondade e, acima
de tudo, a busca da qualidade. Ela é boa amiga, e
ótima editora.
Devo também mencionar Frederick
Buechner, G. K. Chesterton, C. S. Lewis, Jürgen Moitmann,
George MacDonald e Dorothy Sayers. São nomes com
quem você já cruzou, pois aparecem ao longo
de todo o livro. No sentido mais verdadeiro, eles são
meus pastores. Em grande parte, continuo a crer
devido a eles.
Uma classe que lecionei na minha
igreja (La Salle Street Church) garantiu que pelo menos
durante cinco anos eu estudasse detalhadamente o Antigo
Testamento, e seus alunos contribuíram com muitos
pensamentos, bem como com muitas perguntas irrespondíveis.
Mencionei algumas vezes uma inspiradora
visita às montanhas do Colorado: sou grato às
famílias Koneman e Brayton, que possibilitaram esse
período.
E quero agradecer ao Richard. Ele
tem a coragem de ser honesto; aprendi muito com ele. Espero
que ele nunca pare de fazer perguntas, que nunca abandone
sua busca.

APÓS O
INÍCIO DESTE PROJETO, recebi alguns telefonemas de
pessoas de minha igreja, que ouviram falar a seu respeito.
É verdade que você está escrevendo
um livro sobre pessoas decepcionadas com Deus?, indagavam.
Nesse caso eu gostaria de dizer algo. Nunca falei
sobre isso com ninguém, mas a minha vida cristã
possui momentos de grande desilusão!
Entrevistei algumas dessas pessoas
que me telefonaram, e suas histórias me ajudaram
a estabelecer o rumo deste livro.
Descobri que para muitas pessoas
existe um grande abismo entre o que esperam de sua fé
cristã e o que de fato acontece. A partir de um verdadeiro
mundo de livros, sermões e testemunhos, todos prometendo
vitória e sucesso, elas aprendem a esperar que Deus
atue de modo impressionante em suas vidas. Se não
enxergam tais intervenções, sentem-se desapontadas,
traídas e freqüentemente culpadas. Como disse
uma mulher:
Eu ficava pensando na frase
relacionamento pessoal com Jesus Cristo. Mas,
para minha surpresa, descobri que isso é diferente
de qualquer outro relacionamento pessoal. Nunca vi a Deus,
nunca o ouvi, nunca o senti, nunca experimentei os elementos
mais básicos de um relacionamento. Ou existe alguma
coisa errada com o que me ensinaram, ou existe alguma coisa
errada comigo.
As entrevistas me convenceram de
que essa desilusão depende em grande parte daquilo
que, em primeiro lugar, esperamos de Deus. Por essa razão,
a primeira parte deste livro explora a Bíblia para
vermos aquilo que realmente podemos esperar de Deus. Hesitei
em começar por aí, pois sei que algumas pessoas,
de modo especial as que estão decepcionadas, quase
não procuram mais a Bíblia. Mas, qual a melhor
maneira de começar, senão deixando Deus falar
por si mesmo? Procurei me livrar de preconceitos e ler a
Bíblia como uma história com um enredo.
O que descobri me surpreendeu grandemente. Era uma história
bem diferente daquela que haviam me ensinado durante quase
toda a minha vida.
Certa vez, quando expliquei este
projeto a um amigo, ele franziu as sobrancelhas e balançou
a cabeça. Acho que nunca tentei psicanalisar
a Deus, disse. Espero que não seja isso o que
estou tentando! Mas quero mesmo entender a Deus melhor,
aprender por que ele algumas vezes age de maneira misteriosa
ou nem parece agir.
Na verdade tive o propósito
de escrever dois livros diferentes; foi o que fiz. Mas terminei
pondo os dois sob a mesma capa. O segundo livro se dirige
a questões mais práticas e existenciais, e
aplica as idéias que desenvolvi a situações
reais situações que cultivam o desapontamento
com Deus. Por fim, cheguei à conclusão de
que os dois enfoques deveriam fazer parte do mesmo livro,
pois, isoladamente, tanto uma quanto outra parte estaria
incompleta.
Algumas palavras de advertência,
entretanto. Este não é um livro de apologética,
por isso não me darei ao trabalho de apontar para
as provas em favor da existência de Deus na natureza,
nas profecias, em Jesus. Outros autores têm feito
isso com sucesso, e, além do mais, estou lidando
com dúvidas que são mais emocionais do que
intelectuais. A decepção normalmente ocorre
quando alguém querido não se porta como esperamos.
Também não irei discutir
a questão será que Deus realiza milagres?
Para mim é evidente que ele possui poderes e que
os emprega. Deus pode intervir. Então, por que não
o faz com mais freqüência? Por que não
evidenciar-se aos céticos sinceros, que gostariam
de crer caso apenas vissem um sinal? Por que permitir que
a injustiça e o sofrimento se proliferem na Terra?
Por que as intervenções divinas são
raras?
Uma última advertência:
de modo algum estou apresentando um ponto de vista equilibrado
acerca da fé cristã. Afinal, estou escrevendo
para pessoas que, em algum momento, ouviram o silêncio
de Deus. Olhar para Jó e Abraão como exemplos
de fé é um pouco parecido com estudar a história
da civilização examinando somente as guerras.
Por outro lado, há muitos livros cristãos
que não fazem qualquer menção às
guerras e prometem somente vitórias. Este é,
sim, um livro sobre a fé, mas vista pelos olhos daqueles
que duvidam.
Finalmente, devo explicar o método
que escolhi para lidar com as referências bíblicas.
Resisti à idéia de colocá-las em notas
de rodapé ou em parênteses dentro do texto:
isso cria uma dificuldade de leitura, algo não muito
diferente de ouvir alguém gago. Em vez disso, estou
indicando as fontes de citações diretas no
final de cada capítulo. Os detetives de verdade devem
ser capazes de identificar a passagem bíblica correta.
L I V R O
1
DEUS NAS
SOMBRAS
Você não precisa ficar sentado
lá fora no escuro. Se, todavia,
desejar olhar para as estrelas,
descobrirá que se requer
escuridão. As estrelas não a
requerem nem a exigem.
Annie Diliard


DESDE QUE MEU
LIVRO Onde Está Deus no Meu Sofrimento foi
publicado, venho recebendo cartas de pessoas decepcionadas
com Deus.
Uma jovem mãe escreveu que
sua alegria se tornou em amargura e profunda tristeza quando
deu à luz uma menina com espinha bífida, um
defeito de nascimento que deixa exposta a medula vertebral.
Página após página de caligrafia minúscula
e trabalhada, ela relatava como as contas médicas
exauriram as economias da família e como seu casamento
ruiu quando seu marido passou a ficar ressentido com todo
o tempo que ela devotava à filhinha enferma. À
medida que sua vida se desintegrava, ela começou
a duvidar do que antes havia crido sobre um Deus amoroso.
Tinha eu algum conselho?
Um homossexual me contou sua história
gradualmente, numa sucessão de cartas. Por mais de
uma década buscara uma cura para suas
tendências sexuais, experimentando cultos de cura,
grupos cristãos de apoio e tratamento químico.
Ele até mesmo se submeteu a uma forma absurda de
terapia, em que psicólogos aplicavam choques elétricos
em seus órgãos genitais, caso ele reagisse
a fotografias eróticas de homens. Nada funcionou.
Finalmente ele se entregou a uma vida de promiscuidade com
outros homens. Ocasionalmente ainda me escreve. Insiste
em que deseja seguir a Deus, mas sente-se sem condições
devido à sua maldição pessoal.
Uma jovem escreveu, um tanto constrangida,
sobre sua contínua depressão. Segundo disse,
ela não tem motivo para ficar deprimida. Tem boa
saúde, ganha bem e possui uma sólida base
familiar. Mas na maioria dos dias, quando acorda, não
consegue imaginar uma única razão para continuar
vivendo. Já não se importa com a vida ou com
Deus. Quando ora, não sabe se alguém está
de fato ouvindo.
Essas e outras cartas que tenho
recebido ao longo dos anos conduzem à mesma pergunta
básica, expressa de diferentes maneiras: Seu
livro trata da dor física. Mas que dizer da minha
dor? Onde Deus está quando sinto dor emocional? O
que a Bíblia diz a respeito? Respondo às
cartas da melhor maneira que posso, pesaroso e consciente
de que as palavras no papel são insatisfatórias.
Será que uma palavra, qualquer palavra, pode chegar
a curar uma ferida? E devo confessar que, após ler
esses relatos angustiados, faço exatamente as mesmas
perguntas. Onde Deus está diante de nossa dor emocional?
Por que, com tanta freqüência, ele nos desaponta?

A desilusão
com Deus nem sempre surge de uma forma tão marcante.
Para mim, ela também aparece inesperadamente nos
detalhes corriqueiros da vida diária. Recordo-me
de uma noite de inverno; uma noite de um frio gélido
e inclemente em Chicago. O vento assobiava, e um misto de
neve e chuva caía forte, cobrindo as ruas com uma
camada escura e brilhante. Naquela noite o motor de meu
carro parou num bairro pouco seguro. Enquanto eu levantava
o capô e me debruçava por cima do motor, com
aquela chuva e neve açoitando minhas costas como
minúsculos pedriscos, orei repetidas vezes: Por
favor, ajude-me a fazer funcionar o motor do carro.
Por mais agitado que eu estivesse,
mexendo com fios, mangueiras e cabos, nada disso dava partida
no motor. Passei uma hora numa velha lanchonete, aguardando
um guincho. Sentado numa cadeira de plástico e com
as roupas encharcadas formando uma poça dágua
cada vez maior ao meu redor, fiquei imaginando o que Deus
pensava do meu infortúnio. Eu ia perder um encontro
que fora marcado para aquela noite e provavelmente ia desperdiçar
muitas horas nos dias seguintes tentando fazer com que alguma
oficina especializada em se aproveitar de motoristas desamparados
fizesse um serviço honesto e direito. Será
que Deus se importava com a minha frustração
ou com as minhas energias desperdiçadas ou com o
dinheiro perdido?
À semelhança da mulher
constrangida diante de sua depressão, sinto vergonha
até mesmo de mencionar uma oração assim
que não foi respondida. Parece algo sem importância
e egoísta, talvez até mesmo tolo, orar para
que o carro dê partida. Mas descobri que pequenos
desapontamentos tendem a se acumular com o passar do tempo.
Começo a imaginar se Deus de fato se importa com
os detalhes da minha vida, ou se ele se importa comigo.
Sou tentado a orar com menos freqüência, concluindo
antecipadamente que não vai adiantar. Ou vai? Minhas
emoções e minha fé oscilam. Quando
essas dúvidas se instalam, estou ainda menos preparado
para épocas de grandes crises. Uma vizinha está
morrendo de câncer; oro diligentemente por ela. Mas,
mesmo enquanto oro, fico pensando: pode-se confiar em Deus?
Se tantas orações pequenas ficam sem resposta,
que dizer das grandes?
As lutas diárias da vida
parecem bem distantes das frases otimistas e triunfantes
sobre o amor e o interesse pessoal de Deus que ouço
às vezes em igrejas evangélicas. Até
mesmo a Bíblia parece confundir: contém tanto
tragédias quanto triunfos. O que podemos esperar
de Deus, afinal?
Certa manhã, num quarto de
hotel, liguei a televisão e o rosto gorducho e quadrado
de um conhecido evangelista encheu a tela. Estou com
raiva de Deus, disse, com um olhar furioso. Parecia
uma confissão surpreendente vinda de um homem que
fizera carreira em cima da idéia de fé
do tamanho da semente de mostarda. Durante anos tinha
pregado que Deus intervém diretamente em favor de
seus seguidores. Mas, disse ele, Deus o tinha decepcionado,
e ele passou a explicar: Deus lhe dera ordens para que edificasse
um grande ministério e, no entanto, o projeto se
revelou um desastre financeiro. Agora ele era obrigado a
vender propriedades a preço baixo e a reduzir programas.
Ele tinha feito sua parte do acordo, mas Deus não.
Algumas semanas depois vi novamente
o evangelista na televisão. Dessa vez ele estava
transpirando fé e confiança. Inclinou-se em
direção à câmera, o rosto enrugado
se abrindo num amplo sorriso, e apontou o dedo para um milhão
de espectadores.
Algo bom vai acontecer com você nesta semana!
disse, esticando ao máximo a palavra bom.
Era como um bom vendedor, profundamente convincente. Alguns
dias depois, contudo, ouvi pelo noticiário que seu
filho havia se suicidado. Não pude deixar de imaginar
o que o evangelista disse para Deus naquela semana fatídica.
Aconteceu com pessoas como o tele-evangelista,
e com pessoas como as que escreveram cartas, e acontece
com cristãos comuns. Primeiro surge o desapontamento,
então uma semente de dúvida, depois uma reação
confusa de ira ou a sensação de ser traído.
Começamos a questionar se Deus é digno de
confiança, se de fato podemos confiar a ele as nossas
vidas.

Venho refletindo
sobre essa questão da decepção com
Deus há bastante tempo, mas hesitei em escrever a
respeito por duas razões. Primeiro, eu sabia que
teria de me defrontar com questões que não
têm respostas fáceis questões
que, na verdade, podem não ter resposta alguma. E,
em segundo lugar, eu não desejava escrever um livro
que, por tratar da questão do fracasso, desencorajasse
a fé de quem quer que fosse.
Sei que alguns cristãos rejeitariam
sem mais nem menos a expressão decepção
com Deus. Tal idéia é inteiramente errada,
dizem. Jesus prometeu que a fé do tamanho de uma
semente de mostarda é capaz de transportar montanhas,
que qualquer coisa pode acontecer se dois ou três
se reunirem para orar. A vida cristã é uma
vida de vitória e triunfo. Deus quer que sejamos
felizes e prósperos e que tenhamos saúde;
qualquer outra condição revela falta de fé.
Foi durante uma visita a pessoas
que crêem exatamente assim que finalmente tomei a
decisão de escrever este livro. Incumbido por uma
revista, estava investigando a questão da cura divina,
e a pesquisa me levou a uma grande igreja de triste fama
na região rural de Indiana, um Estado norte-americano.
Eu havia tomado conhecimento da igreja através de
uma série de artigos publicados no jornal Chicago
Tribune e de uma reportagem especial no noticiário
Nightline da rede ABC de televisão.
Os membros dessa igreja criam que
a fé pura podia curar qualquer doença e que
buscar ajuda em qualquer outro lugar ou pessoa por
exemplo, de médicos demonstrava uma falta
de fé em Deus. Os artigos do Chicago Tribune mencionaram
pais que, atônitos, observavam seus filhos travarem
batalhas perdidas contra a meningite, ou a pneumonia, ou
um vírus comum de gripe enfermidades que facilmente
poderiam ser tratadas. Em um mapa dos Estados Unidos que
mostrava onde as pessoas ligadas a essa igreja atualmente
vivem, um artista do jornal desenhou pequenas lápides
de túmulo para assinalar os locais onde pessoas haviam
morrido depois de recusarem tratamento médico, em
obediência ao ensino da igreja. Havia cinqüenta
e duas lápides ao todo.
De acordo com as reportagens, mulheres
grávidas que seguiam o ensino da igreja morriam ao
dar à luz numa proporção oito vezes
maior do que a média nacional, e a taxa de mortalidade
infantil era três vezes maior. Apesar disso, a igreja
estava crescendo e tinha-se estabelecido em dezenove Estados
e em outros cinco países.
Visitei a igreja-mãe, no
Estado de Indiana, num dia quente de agosto. Ondas de calor
se espalhavam por cima do asfalto das estradas, e nos campos
de milho os talos estavam murchando e ficando queimados
pelo sol. O prédio da igreja jazia sem placa indicativa
no meio de um daqueles milharais, isolado, tal como um gigantesco
celeiro comunitário. As pessoas estavam apreensivas
devido a toda publicidade, especialmente desde que ex-membros
haviam recentemente entrado com processos na Justiça.
E no estacionamento tive de convencer dois guardas a me
deixar passar.
Acho que eu estava esperando um
sinal de fanatismo durante o culto: um sermão hipnótico
que levasse pessoas ao desmaio, pregado por alguém
do tipo Jim Jones. Não vi nada disso. Durante noventa
minutos, setecentos de nós estávamos sentados
num grande semicírculo, cantávamos hinos e
estudávamos a Bíblia.
Eu estava entre pessoas simples.
As mulheres não usavam calças, mas vestidos
ou saias, e utilizavam pouca maquiagem. Os homens, de camisa
e gravata, sentavam-se junto de suas famílias e ajudavam
a manter as crianças comportadas.
Ali as crianças eram bem
mais onipresentes do que na maioria das igrejas; estavam
em todo lugar. Ficar quieto durante noventa minutos é
algo que está além dos limites que uma criança
pequena consegue suportar, e observei os pais tentando contornar
a situação. Livros para colorir, havia aos
montes. As mães faziam jogos com os dedos dos filhos.
Algumas traziam montes de brinquedos em bolsas enormes.
Se eu tivesse vindo à procura
de sensacionalismo para o meu artigo, teria ido embora de
mãos vazias. Eu tinha visto uma pequena amostra da
velha cultura americana. A família tradicional estava
passando bem, pelo menos nesse local. Ali os pais amavam
seus filhos tanto quanto o fazem quaisquer outros pais na
terra.
E, apesar disso (o mapa com as pequenas
lápides saltava à mente), alguns deles estiveram
sentados à beira do leito de seus filhinhos morrendo,
e não fizeram nada. Um pai contou ao jornal Chicago
Tribune da sua vigília de oração enquanto
observava seu filho de quinze meses de idade lutar contra
uma febre durante duas semanas. A doença inicialmente
provocou surdez, depois cegueira. O pastor da igreja conclamou
a ainda mais fé e persuadiu o pai a não chamar
um médico. No dia seguinte, o menino estava morto.
A autópsia revelou que ele morrera de uma forma de
meningite facilmente tratável.
No geral, os membros da igreja em
Indiana não culpam a Deus pelo que aconteceu, ou
pelo menos não o admitem. Em vez disso, culpam-se
a si mesmos por uma fé fraca. Enquanto isso, as lápides
se multiplicam.
Saí daquele culto dominical
com uma profunda convicção de que aquilo que
pensamos a respeito de Deus e cremos a respeito de Deus
é importante importantíssimo. Aquelas
pessoas não são bichos-papões nem assassinos
de crianças, e assim mesmo algumas dezenas de seus
filhos morreram simplesmente devido a um erro (creio eu)
de teologia.
Por causa daquelas pessoas sinceras
em Indiana, junto com as pessoas questionadoras que me têm
escrito, decidi enfrentar temas que estou profundamente
tentado a evitar. (Na realidade, o ensino da igreja em Indiana
não é tão diferente daquele que ouço
em muitas igrejas evangélicas e em programas religiosos
no rádio e na televisão; ela simplesmente
aplica as extravagantes promessas de fé de uma forma
mais coerente.) Dessa forma, este é um livro de teologia;
com toda certeza, não é um livro técnico,
mas acerca da natureza de Deus e de por que ele age de formas
que causam perplexidade e de por que, às vezes, ele
não age.
Não ousamos restringir a
teologia às cantinas dos seminários, onde
professores e alunos jogam uma espécie de tênis
mental. A teologia afeta todos nós. Algumas pessoas
perdem a fé devido a uma profunda sensação
de decepção com Deus. Esperam que Deus aja
de uma certa maneira, e as coisas acontecem de forma diferente.
Outras, como as de Indiana, podem não perder sua
fé, mas também experimentam uma forma de desapontamento.
Acreditam que Deus intervirá, oram por um milagre,
e suas orações voltam sem resposta. Pelo menos
cinqüenta e duas vezes aconteceu daquele modo na igreja
de Indiana.