Agradecimentos 07
Prefácio 09
LIVRO 1 - DEUS NAS SOMBRAS
Primeira Parte — Ouvindo o Silêncio
capítulo 1 – Um Erro Fatal 19
capítulo 2 – A Dor da Traição 27
capítulo 3 – Três Perguntas que Ninguém Faz em Voz Alta 35
capítulo 4 – O Que Aconteceria Se... 43
capítulo 5 – A Fonte 51

Segunda Parte — Estabelecendo Contato: O Pai
capítulo 6 – Negócio Arriscado 57
capítulo 7 – O Genitor 63
capítulo 8 – A Plena Força da Luz do Sol 69
capítulo 9 – Um Instante de Resplendor 77
capítulo 10 – Fogo do Céu e a Palavra 83
capítulo 11 – Amante Ferido 89
capítulo 12 – Bom Demais para Ser Verdade 97

Terceira Parte — Aproximando-se: O Filho
capítulo 13 – A Descensão 103
capítulo 14 – Grandes Expectativas 107
capítulo 15 – Timidez Divina 113
capítulo 16 – O Milagre Adiado 121
capítulo 17 – Avanço 127

Quarta Parte — Transferindo-se: O Espírito
capítulo 18 – Delegação 137
capítulo 19 – Mudanças 141
capítulo 20 – O Clímax 149

LIVRO 2 - ENXERGANDO NO ESCURO
capítulo 21 – Uma Interrupção 161
capítulo 22 – O Único Problema 169
capítulo 23 – Um Papel no Cosmo 177
capítulo 24 – Deus é Injusto? 187
capítulo 25 – Por que Deus não Explica? 201
capítulo 26 – Deus está Calado? 217
capítulo 27 – Por que Deus Não Intervém? 231
capítulo 28 – Deus está Escondido? 249
capítulo 29 – Por Que Jó Morreu Feliz? 259
capítulo 30 – Duas Apostas, Duas Parábolas 269
Bibliografia 279
Referências Bibliográficas 283

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

TALVEZ ALGUM DIA eu tenha de escrever um livro sem a ajuda de outros, mas espero que essa época não chegue tão cedo, pois atualmente dependo imensamente das sugestões editoriais de outros leitores. Sou profundamente grato a meu amigo Tim Stafford, de quem dependi totalmente para a leitura deste manuscrito em três rascunhos sucessivos. Esse foi um trabalho de amor: antes das oportunas sugestões de Tim quanto aos cortes necessários, o manuscrito era cinqüenta por cento mais longo.
    Tive também a felicidade de participar de uma reunião de avaliação de manuscritos junto com quatro outros escritores — Steve Lawhead, Karen Mains, Luci Shaw e Walter Wangerin — que me ajudaram a estabelecer o estilo da versão final. Então em reuniões à parte, Walter me desvendou alguns dos mistérios de como narrar histórias. E estes outros também leram e criticaram o manuscrito, dando-me conselhos valiosos: Elsie Baker, Dr. John Boyle, Dr. Paul Brand, Harold Fickett, Hal Knight, Lee Phillips e Dr. Cornelius Planünga.
    Depois de eu trabalhar com base no conselho de todo esse pessoal, Judith Markham, minha editora em três livros anteriores, preparou o livro em sua forma final. Judith proporciona uma rara combinação de diplomacia, sabedoria literária, bondade e, acima de tudo, a busca da qualidade. Ela é boa amiga, e ótima editora.
    Devo também mencionar Frederick Buechner, G. K. Chesterton, C. S. Lewis, Jürgen Moitmann, George MacDonald e Dorothy Sayers. São nomes com quem você já cruzou, pois aparecem ao longo de todo o livro. No sentido mais verdadeiro, eles são meus “pastores”. Em grande parte, continuo a crer devido a eles.
    Uma classe que lecionei na minha igreja (La Salle Street Church) garantiu que pelo menos durante cinco anos eu estudasse detalhadamente o Antigo Testamento, e seus alunos contribuíram com muitos pensamentos, bem como com muitas perguntas irrespondíveis.
    Mencionei algumas vezes uma inspiradora visita às montanhas do Colorado: sou grato às famílias Koneman e Brayton, que possibilitaram esse período.
    E quero agradecer ao Richard. Ele tem a coragem de ser honesto; aprendi muito com ele. Espero que ele nunca pare de fazer perguntas, que nunca abandone sua busca.

 

 

 

APÓS O INÍCIO DESTE PROJETO, recebi alguns telefonemas de pessoas de minha igreja, que ouviram falar a seu respeito. “É verdade que você está escrevendo um livro sobre pessoas decepcionadas com Deus?”, indagavam. “Nesse caso eu gostaria de dizer algo. Nunca falei sobre isso com ninguém, mas a minha vida cristã possui momentos de grande desilusão!”
    Entrevistei algumas dessas pessoas que me telefonaram, e suas histórias me ajudaram a estabelecer o rumo deste livro.
    Descobri que para muitas pessoas existe um grande abismo entre o que esperam de sua fé cristã e o que de fato acontece. A partir de um verdadeiro mundo de livros, sermões e testemunhos, todos prometendo vitória e sucesso, elas aprendem a esperar que Deus atue de modo impressionante em suas vidas. Se não enxergam tais intervenções, sentem-se desapontadas, traídas e freqüentemente culpadas. Como disse uma mulher:
    “Eu ficava pensando na frase ‘relacionamento pessoal com Jesus Cristo’. Mas, para minha surpresa, descobri que isso é diferente de qualquer outro relacionamento pessoal. Nunca vi a Deus, nunca o ouvi, nunca o senti, nunca experimentei os elementos mais básicos de um relacionamento. Ou existe alguma coisa errada com o que me ensinaram, ou existe alguma coisa errada comigo.”
    As entrevistas me convenceram de que essa desilusão depende em grande parte daquilo que, em primeiro lugar, esperamos de Deus. Por essa razão, a primeira parte deste livro explora a Bíblia para vermos aquilo que realmente podemos esperar de Deus. Hesitei em começar por aí, pois sei que algumas pessoas, de modo especial as que estão decepcionadas, quase não procuram mais a Bíblia. Mas, qual a melhor maneira de começar, senão deixando Deus falar por si mesmo? Procurei me livrar de preconceitos e ler a Bíblia como uma história com um “enredo”. O que descobri me surpreendeu grandemente. Era uma história bem diferente daquela que haviam me ensinado durante quase toda a minha vida.
    Certa vez, quando expliquei este projeto a um amigo, ele franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça. “Acho que nunca tentei ‘psicanalisar’ a Deus”, disse. Espero que não seja isso o que estou tentando! Mas quero mesmo entender a Deus melhor, aprender por que ele algumas vezes age de maneira misteriosa — ou nem parece agir.
    Na verdade tive o propósito de escrever dois livros diferentes; foi o que fiz. Mas terminei pondo os dois sob a mesma capa. O segundo livro se dirige a questões mais práticas e existenciais, e aplica as idéias que desenvolvi a situações reais — situações que cultivam o desapontamento com Deus. Por fim, cheguei à conclusão de que os dois enfoques deveriam fazer parte do mesmo livro, pois, isoladamente, tanto uma quanto outra parte estaria incompleta.
    Algumas palavras de advertência, entretanto. Este não é um livro de apologética, por isso não me darei ao trabalho de apontar para as provas em favor da existência de Deus na natureza, nas profecias, em Jesus. Outros autores têm feito isso com sucesso, e, além do mais, estou lidando com dúvidas que são mais emocionais do que intelectuais. A decepção normalmente ocorre quando alguém querido não se porta como esperamos.
    Também não irei discutir a questão “será que Deus realiza milagres?” Para mim é evidente que ele possui poderes e que os emprega. Deus pode intervir. Então, por que não o faz com mais freqüência? Por que não evidenciar-se aos céticos sinceros, que gostariam de crer caso apenas vissem um sinal? Por que permitir que a injustiça e o sofrimento se proliferem na Terra? Por que as intervenções divinas são raras?
    Uma última advertência: de modo algum estou apresentando um ponto de vista equilibrado acerca da fé cristã. Afinal, estou escrevendo para pessoas que, em algum momento, ouviram o silêncio de Deus. Olhar para Jó e Abraão como exemplos de fé é um pouco parecido com estudar a história da civilização examinando somente as guerras. Por outro lado, há muitos livros cristãos que não fazem qualquer menção às guerras e prometem somente vitórias. Este é, sim, um livro sobre a fé, mas vista pelos olhos daqueles que duvidam.
    Finalmente, devo explicar o método que escolhi para lidar com as referências bíblicas. Resisti à idéia de colocá-las em notas de rodapé ou em parênteses dentro do texto: isso cria uma dificuldade de leitura, algo não muito diferente de ouvir alguém gago. Em vez disso, estou indicando as fontes de citações diretas no final de cada capítulo. Os detetives de verdade devem ser capazes de identificar a passagem bíblica correta.

 

 

 

 

 

L I V R O 1



DEUS NAS
SOMBRAS


Você não precisa ficar sentado
lá fora no escuro. Se, todavia,
desejar olhar para as estrelas,
descobrirá que se requer
escuridão. As estrelas não a
requerem nem a exigem.

Annie Diliard

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DESDE QUE MEU LIVRO Onde Está Deus no Meu Sofrimento foi publicado, venho recebendo cartas de pessoas decepcionadas com Deus.
    Uma jovem mãe escreveu que sua alegria se tornou em amargura e profunda tristeza quando deu à luz uma menina com espinha bífida, um defeito de nascimento que deixa exposta a medula vertebral. Página após página de caligrafia minúscula e trabalhada, ela relatava como as contas médicas exauriram as economias da família e como seu casamento ruiu quando seu marido passou a ficar ressentido com todo o tempo que ela devotava à filhinha enferma. À medida que sua vida se desintegrava, ela começou a duvidar do que antes havia crido sobre um Deus amoroso. Tinha eu algum conselho?
    Um homossexual me contou sua história gradualmente, numa sucessão de cartas. Por mais de uma década buscara uma “cura” para suas tendências sexuais, experimentando cultos de cura, grupos cristãos de apoio e tratamento químico. Ele até mesmo se submeteu a uma forma absurda de terapia, em que psicólogos aplicavam choques elétricos em seus órgãos genitais, caso ele reagisse a fotografias eróticas de homens. Nada funcionou. Finalmente ele se entregou a uma vida de promiscuidade com outros homens. Ocasionalmente ainda me escreve. Insiste em que deseja seguir a Deus, mas sente-se sem condições devido à sua maldição pessoal.
    Uma jovem escreveu, um tanto constrangida, sobre sua contínua depressão. Segundo disse, ela não tem motivo para ficar deprimida. Tem boa saúde, ganha bem e possui uma sólida base familiar. Mas na maioria dos dias, quando acorda, não consegue imaginar uma única razão para continuar vivendo. Já não se importa com a vida ou com Deus. Quando ora, não sabe se alguém está de fato ouvindo.
    Essas e outras cartas que tenho recebido ao longo dos anos conduzem à mesma pergunta básica, expressa de diferentes maneiras: “Seu livro trata da dor física. Mas que dizer da minha dor? Onde Deus está quando sinto dor emocional? O que a Bíblia diz a respeito?” Respondo às cartas da melhor maneira que posso, pesaroso e consciente de que as palavras no papel são insatisfatórias. Será que uma palavra, qualquer palavra, pode chegar a curar uma ferida? E devo confessar que, após ler esses relatos angustiados, faço exatamente as mesmas perguntas. Onde Deus está diante de nossa dor emocional? Por que, com tanta freqüência, ele nos desaponta?

A desilusão com Deus nem sempre surge de uma forma tão marcante. Para mim, ela também aparece inesperadamente nos detalhes corriqueiros da vida diária. Recordo-me de uma noite de inverno; uma noite de um frio gélido e inclemente em Chicago. O vento assobiava, e um misto de neve e chuva caía forte, cobrindo as ruas com uma camada escura e brilhante. Naquela noite o motor de meu carro parou num bairro pouco seguro. Enquanto eu levantava o capô e me debruçava por cima do motor, com aquela chuva e neve açoitando minhas costas como minúsculos pedriscos, orei repetidas vezes: “Por favor, ajude-me a fazer funcionar o motor do carro.”
    Por mais agitado que eu estivesse, mexendo com fios, mangueiras e cabos, nada disso dava partida no motor. Passei uma hora numa velha lanchonete, aguardando um guincho. Sentado numa cadeira de plástico e com as roupas encharcadas formando uma poça d’água cada vez maior ao meu redor, fiquei imaginando o que Deus pensava do meu infortúnio. Eu ia perder um encontro que fora marcado para aquela noite e provavelmente ia desperdiçar muitas horas nos dias seguintes tentando fazer com que alguma oficina especializada em se aproveitar de motoristas desamparados fizesse um serviço honesto e direito. Será que Deus se importava com a minha frustração ou com as minhas energias desperdiçadas ou com o dinheiro perdido?
    À semelhança da mulher constrangida diante de sua depressão, sinto vergonha até mesmo de mencionar uma oração assim que não foi respondida. Parece algo sem importância e egoísta, talvez até mesmo tolo, orar para que o carro dê partida. Mas descobri que pequenos desapontamentos tendem a se acumular com o passar do tempo. Começo a imaginar se Deus de fato se importa com os detalhes da minha vida, ou se ele se importa comigo. Sou tentado a orar com menos freqüência, concluindo antecipadamente que não vai adiantar. Ou vai? Minhas emoções e minha fé oscilam. Quando essas dúvidas se instalam, estou ainda menos preparado para épocas de grandes crises. Uma vizinha está morrendo de câncer; oro diligentemente por ela. Mas, mesmo enquanto oro, fico pensando: pode-se confiar em Deus? Se tantas orações pequenas ficam sem resposta, que dizer das grandes?
    As lutas diárias da vida parecem bem distantes das frases otimistas e triunfantes sobre o amor e o interesse pessoal de Deus que ouço às vezes em igrejas evangélicas. Até mesmo a Bíblia parece confundir: contém tanto tragédias quanto triunfos. O que podemos esperar de Deus, afinal?
    Certa manhã, num quarto de hotel, liguei a televisão e o rosto gorducho e quadrado de um conhecido evangelista encheu a tela. “Estou com raiva de Deus”, disse, com um olhar furioso. Parecia uma confissão surpreendente vinda de um homem que fizera carreira em cima da idéia de “fé do tamanho da semente de mostarda”. Durante anos tinha pregado que Deus intervém diretamente em favor de seus seguidores. Mas, disse ele, Deus o tinha decepcionado, e ele passou a explicar: Deus lhe dera ordens para que edificasse um grande ministério e, no entanto, o projeto se revelou um desastre financeiro. Agora ele era obrigado a vender propriedades a preço baixo e a reduzir programas. Ele tinha feito sua parte do acordo, mas Deus não.
    Algumas semanas depois vi novamente o evangelista na televisão. Dessa vez ele estava transpirando fé e confiança. Inclinou-se em direção à câmera, o rosto enrugado se abrindo num amplo sorriso, e apontou o dedo para um milhão de espectadores.
— Algo bom vai acontecer com você nesta semana! — disse, esticando ao máximo a palavra “bom”. Era como um bom vendedor, profundamente convincente. Alguns dias depois, contudo, ouvi pelo noticiário que seu filho havia se suicidado. Não pude deixar de imaginar o que o evangelista disse para Deus naquela semana fatídica.
    Aconteceu com pessoas como o tele-evangelista, e com pessoas como as que escreveram cartas, e acontece com cristãos comuns. Primeiro surge o desapontamento, então uma semente de dúvida, depois uma reação confusa de ira ou a sensação de ser traído. Começamos a questionar se Deus é digno de confiança, se de fato podemos confiar a ele as nossas vidas.

Venho refletindo sobre essa questão da decepção com Deus há bastante tempo, mas hesitei em escrever a respeito por duas razões. Primeiro, eu sabia que teria de me defrontar com questões que não têm respostas fáceis — questões que, na verdade, podem não ter resposta alguma. E, em segundo lugar, eu não desejava escrever um livro que, por tratar da questão do fracasso, desencorajasse a fé de quem quer que fosse.
    Sei que alguns cristãos rejeitariam sem mais nem menos a expressão “decepção com Deus”. Tal idéia é inteiramente errada, dizem. Jesus prometeu que a fé do tamanho de uma semente de mostarda é capaz de transportar montanhas, que qualquer coisa pode acontecer se dois ou três se reunirem para orar. A vida cristã é uma vida de vitória e triunfo. Deus quer que sejamos felizes e prósperos e que tenhamos saúde; qualquer outra condição revela falta de fé.
    Foi durante uma visita a pessoas que crêem exatamente assim que finalmente tomei a decisão de escrever este livro. Incumbido por uma revista, estava investigando a questão da cura divina, e a pesquisa me levou a uma grande igreja de triste fama na região rural de Indiana, um Estado norte-americano. Eu havia tomado conhecimento da igreja através de uma série de artigos publicados no jornal Chicago Tribune e de uma reportagem especial no noticiário “Nightline” da rede ABC de televisão.
    Os membros dessa igreja criam que a fé pura podia curar qualquer doença e que buscar ajuda em qualquer outro lugar ou pessoa — por exemplo, de médicos — demonstrava uma falta de fé em Deus. Os artigos do Chicago Tribune mencionaram pais que, atônitos, observavam seus filhos travarem batalhas perdidas contra a meningite, ou a pneumonia, ou um vírus comum de gripe — enfermidades que facilmente poderiam ser tratadas. Em um mapa dos Estados Unidos que mostrava onde as pessoas ligadas a essa igreja atualmente vivem, um artista do jornal desenhou pequenas lápides de túmulo para assinalar os locais onde pessoas haviam morrido depois de recusarem tratamento médico, em obediência ao ensino da igreja. Havia cinqüenta e duas lápides ao todo.
    De acordo com as reportagens, mulheres grávidas que seguiam o ensino da igreja morriam ao dar à luz numa proporção oito vezes maior do que a média nacional, e a taxa de mortalidade infantil era três vezes maior. Apesar disso, a igreja estava crescendo e tinha-se estabelecido em dezenove Estados e em outros cinco países.
    Visitei a igreja-mãe, no Estado de Indiana, num dia quente de agosto. Ondas de calor se espalhavam por cima do asfalto das estradas, e nos campos de milho os talos estavam murchando e ficando queimados pelo sol. O prédio da igreja jazia sem placa indicativa no meio de um daqueles milharais, isolado, tal como um gigantesco celeiro comunitário. As pessoas estavam apreensivas devido a toda publicidade, especialmente desde que ex-membros haviam recentemente entrado com processos na Justiça. E no estacionamento tive de convencer dois guardas a me deixar passar.
    Acho que eu estava esperando um sinal de fanatismo durante o culto: um sermão hipnótico que levasse pessoas ao desmaio, pregado por alguém do tipo Jim Jones. Não vi nada disso. Durante noventa minutos, setecentos de nós estávamos sentados num grande semicírculo, cantávamos hinos e estudávamos a Bíblia.
    Eu estava entre pessoas simples. As mulheres não usavam calças, mas vestidos ou saias, e utilizavam pouca maquiagem. Os homens, de camisa e gravata, sentavam-se junto de suas famílias e ajudavam a manter as crianças comportadas.
    Ali as crianças eram bem mais onipresentes do que na maioria das igrejas; estavam em todo lugar. Ficar quieto durante noventa minutos é algo que está além dos limites que uma criança pequena consegue suportar, e observei os pais tentando contornar a situação. Livros para colorir, havia aos montes. As mães faziam jogos com os dedos dos filhos. Algumas traziam montes de brinquedos em bolsas enormes.
    Se eu tivesse vindo à procura de sensacionalismo para o meu artigo, teria ido embora de mãos vazias. Eu tinha visto uma pequena amostra da velha cultura americana. A família tradicional estava passando bem, pelo menos nesse local. Ali os pais amavam seus filhos tanto quanto o fazem quaisquer outros pais na terra.
    E, apesar disso (o mapa com as pequenas lápides saltava à mente), alguns deles estiveram sentados à beira do leito de seus filhinhos morrendo, e não fizeram nada. Um pai contou ao jornal Chicago Tribune da sua vigília de oração enquanto observava seu filho de quinze meses de idade lutar contra uma febre durante duas semanas. A doença inicialmente provocou surdez, depois cegueira. O pastor da igreja conclamou a ainda mais fé e persuadiu o pai a não chamar um médico. No dia seguinte, o menino estava morto. A autópsia revelou que ele morrera de uma forma de meningite facilmente tratável.
    No geral, os membros da igreja em Indiana não culpam a Deus pelo que aconteceu, ou pelo menos não o admitem. Em vez disso, culpam-se a si mesmos por uma fé fraca. Enquanto isso, as lápides se multiplicam.
    Saí daquele culto dominical com uma profunda convicção de que aquilo que pensamos a respeito de Deus e cremos a respeito de Deus é importante — importantíssimo. Aquelas pessoas não são bichos-papões nem assassinos de crianças, e assim mesmo algumas dezenas de seus filhos morreram simplesmente devido a um erro (creio eu) de teologia.
    Por causa daquelas pessoas sinceras em Indiana, junto com as pessoas questionadoras que me têm escrito, decidi enfrentar temas que estou profundamente tentado a evitar. (Na realidade, o ensino da igreja em Indiana não é tão diferente daquele que ouço em muitas igrejas evangélicas e em programas religiosos no rádio e na televisão; ela simplesmente aplica as extravagantes promessas de fé de uma forma mais coerente.) Dessa forma, este é um livro de teologia; com toda certeza, não é um livro técnico, mas acerca da natureza de Deus e de por que ele age de formas que causam perplexidade e de por que, às vezes, ele não age.
    Não ousamos restringir a teologia às cantinas dos seminários, onde professores e alunos jogam uma espécie de tênis mental. A teologia afeta todos nós. Algumas pessoas perdem a fé devido a uma profunda sensação de decepção com Deus. Esperam que Deus aja de uma certa maneira, e as coisas acontecem de forma diferente. Outras, como as de Indiana, podem não perder sua fé, mas também experimentam uma forma de desapontamento. Acreditam que Deus intervirá, oram por um milagre, e suas orações voltam sem resposta. Pelo menos cinqüenta e duas vezes aconteceu daquele modo na igreja de Indiana.