|
Meditatio Osmar Ludovico | ||
|
Sumário | ||
|
Dedicatória 9 Agradecimentos 11 Prefácio 13 Introdução 17
Parte 1 Comunhão: Meditações sobre a devoção A amizade de Deus 25 Para conhecer Deus 28 Aba, Pai 31 Chamados pelo nome 34 Devoção 37 Vida e espiritualidade 41 O secreto 44 Vida de oração 47 Em tudo dai graças 50 Marta e Maria 53 O deserto, o jardim e a montanha 56
Parte 2 Caminhada: Meditações sobre a vida cristã Conversão radical 61 Mentoria ou direção espiritual 64 | ||
|
Apotegmas 66 A importância de ouvir 70 Santidade 74 Fé cristã 78 Comunhão 81 A mesa do Senhor e outras mesas 84 Do fracasso à realização 87 O discípulo amado 90
Parte 3 Casa: Meditações sobre a família Mistério divino 95 Amor e graça no casamento 98 Festa de casamento 101 Deus da dança 105 Celebração do sexo 109 Adultério e restauração 112 Mitos sobre a família cristã 117 A propósito da submissão 121 Homens que amam 125
Parte 4 Corpo: Meditações sobre a Igreja A Trindade e a Igreja 131 Missão integral 134 A Igreja, a Bíblia e o mundo 137 Pequenas e grandes igrejas 140 Aflição e esperança 143 Adultos e crianças na fé 146 Os sem-igreja 149 Abuso espiritual 152 | ||
|
Dízimos e ofertas 155 Pastores e lobos 158 Antigos e modernos fariseus 162 O juízo começa na casa de Deus 165
Parte 5 Campo: Meditações sobre a sociedade A hora do voto 171 O problema do mal 174 A banalização da violência (com Marion Brepohl) 177 O direito de discordar 182 Dinheiro, Mamon 186 Onde foi parar a arte? 189 Cinema, um olhar crítico 192 Em busca da felicidade 195
Leituras recomendadas 199 Bibliografia 203 | ||
|
Dedicatória | ||
|
A Isabelle, a mulher da minha vida, que há três décadas tem sido minha companheira amorosa e leal. | ||
|
Agradecimentos | ||
|
A meu pai Oswaldo e minha mãe Guiomar, com quem Deus dividiu sua honra de Criador, e que se tornaram com ele co-criadores da minha vida. | ||
|
Prefácio | ||
|
"Seja bem-vinda ao contexto da contracultura." Foi assim que minha percepção avaliou o primeiro contato com o pastor Osmar Ludovico. Era inverno de 1996, e eu, que já não me conformava com a performance medíocre de muitas propostas de trabalho e líderes cristãos, senti-me reconfortada. Havia esperança! Naquela oportunidade, fui transportada para um ambiente do qual não queria mais me distanciar, que possuía também minhas inquietações e visão de vida cristã. Na verdade, estava apenas fazendo uma reportagem como tantas outras. Era sobre o Projeto Grão de Mostarda (PGM), implantado por aqueles que passei a chamar de "os quatro mosqueteiros" do reino de Deus: Osmar, Ricardo Gondim, Ricardo Barbosa e Valdir Steuernagel. Ali em Campinas, no interior de São Paulo, conheci o grupo com sua missão corajosa e urgente: motivar pessoas à reflexão, à lucidez e à maturidade emocional e espiritual. Passei a incorporar cada vez mais aquela mentalidade, dando voz à sua mensagem, como jornalista, e trazendo motivação a tudo quanto fazia, como pessoa. E tudo acontecia dentro de um cenário ameaçador de barulho crescente e luz decrescente. Isto não mudou muito. Muitos de nós, porém, mudamos para melhor! Feitos os elogios e reconhecimentos, foi pela contribuição de Osmar que aprendemos a não ceder ao raso de nós mesmos e de | ||
|
nossa fé. Falo dele com carinho e admiração porque foi quem mais acolheu minha ânsia em agregar aquele diferencial ao meu modus operandi. Esse homem de Deus, nada comum, evidencia consistência, sabe sondar a alma, prioriza a intimidade com Deus e incentiva a leitura da Bíblia com o coração, e não apenas com a razão. Que privilégio! Lembro-me de quando entrevistei James Houston, fundador do Regent College em Vancouver, no Canadá, escritor e admirável pensador. Era 1999, e ver Houston e Osmar lado a lado foi um espetáculo de duplo efeito: emotivo e espiritual. Grande lição de vida para alguém que precisava colocar em palavras impressas tudo o que absorvia. Entre uma palavra e outra, o pastor escocês falava de sua amizade com C. S. Lewis. Minha lente aumentou o zoom e, surpreendentemente, vi-me focando a humildade daqueles dois homens. A imagem de Osmar se sobressaiu. Ele era um brasileiro, era também o nosso mentor. Não há escapatória: o caminho do discipulado é estreito e requer disposição para caminhar na contramão do sistema no qual estamos inseridos. Osmar fez isso por toda a vida, mesmo antes de se converter, nos anos 1970. Contundência, visão diferenciada e sensibilidade já estavam nele quando se envolveu com a cultura hippie, drogas e rock'n roll, quando foi preso no Líbano e no Carandiru. Só que os caminhos de conflitos foram impactados pela graça de Deus. Osmar foi alcançado. Mais luz e menos barulho: lá estava ele, agora na companhia de John Stott e Hans Bürki, com quem aprendeu muito. De um lado, o aprendizado e o encontro com a missão integral; de outro, a espiritualidade clássica. O resultado? Osmar passou a gerar frutos raros, valiosos. Na sua quietude, vivenciou experiências comunitárias profundas, tornou-se pastor de igrejas, enfatizou a importância dos relacionamentos no contexto cristão, lembrando que o | ||
|
Deus da Bíblia é Pai, Filho, Espírito Santo, três seres que se interpenetram num eterno abraço de amor. Mas também se transformou em porta-voz do valor do silêncio e da contemplação: "Somente quando entramos no silêncio, numa dimensão íntima, solitária, é que somos levados ao nosso próprio coração e ao coração de Deus. É só quando sei estar sozinho e quieto diante da face silenciosa e amorosa de Deus que minha narrativa é transformada, minha linguagem deixa de ser explicativa, argumentativa, para se tornar a linguagem da intimidade". Sua trajetória foi marcada pelo que há de melhor para a construção de um evangelho legítimo, sem modelo de mercado, sem cultos bem produzidos, sem fama ou marketing. Focado no conteúdo, optou pela igreja da periferia aquela quase anônima, mas sacrificial, envolvida com a realidade de quem sofre. Osmar, nosso mentor, meu e de tantos outros, optou pelo simples, pelo pequeno, por um ministério mais parecido com o projeto de Jesus de Nazaré. E para um bom entendedor, é fácil perceber que muitas e muitas vezes, "less is more". Isabelle, a companheira francesa, ideal, amiga, sensível e parceira, foi incorporada aos benefícios da amizade com o querido pastor. Ela também passou a ser referencial. Pelo ministério afora, os dois conseguem reluzir, não de forma utópica, mas esperançosa, a luz incomum de quem busca nada mais nada menos que Cristo aqui na terra. Com Ludovico e Isabelle, outras oportunidades de upgrade cristão surgiram. Participar de um encontro sobre espiritualidade deu-me mais recursos para refazer caminhos, desconstruir e construir a Virgínia. Que exercício necessário e feliz! Reuniões contemplativas e de revisão de vida foram parte desse bom caminho. Mas o ganho não podia ser só meu. Por isso, fiz uma proposta para que minha igreja convidasse Osmar e sua esposa para falar em nosso Encontro | ||
|
de Família. E lá vieram os dois, diretamente de Curitiba, onde moravam na época. Mas em julho de 2002 foi a vez de trazer Osmar para o contexto literário. Fiz uma proposta para que começasse a produzir textos, expor suas idéias, agrupar pensamentos em palavras que pudessem ser acessadas pelo grande público. Motivei-o a ser colunista da revista Enfoque. Ele hesitou: "Virgínia, não sei se vou conseguir". Ele não apenas conseguiu, como agora apresenta esta obra como resultado de seu esforço e sua vocação nesses anos conosco, incluindo a maioria dos textos publicados em sua coluna "Vida Cristã". Seu talento está não apenas no conteúdo, mas na forma. Pouco a pouco, nosso mentor e, mais que antes, escritor revelou-se simples e profundo em sua mensagem. Conquistou leitores e admiradores de sua reflexão. Hoje chega a nós com suas meditações sobre devoção, cotidiano, comunhão, família, fé, igreja e sociedade. Todas úteis, cheias de um silêncio pacificador, de um ideal de vida acessível a qualquer mortal. O custo é alto, o caminho é estreito e repleto de contracultura. Mas faço parte dos que só ganharam com essa escolha. Dito isso, tenho esses e tantos outros motivos para convidar você a ler Meditatio e experimentar "a boa, agradável e perfeita vontade de Deus", quando há interesse em fazer um bom exercício de revisão de vida. Disponha-se a redescobrir o valor de sua espiritualidade.
Virgínia Rodrigues Editora, revista Enfoque | ||
|
Introdução | ||
|
O leitor pode perguntar por que este livro tem o título de Meditatio num tempo em que as línguas clássicas não são mais usadas e o latim é uma língua morta. Por que não chamá-lo, simplesmente, de Meditação? Ao usar Meditatio, fazemos referência a uma das mais marcantes e significativas páginas da história da Igreja. É uma expressão que vem desde a época dos pais do deserto, que foi muito utilizada e praticada pela Monástica e sistematizada no que chamamos de Lectio Divina pelo monge cartuxo Guigo II. Ele utiliza a idéia de uma escada para a prática da Lectio Divina, sugerindo uma subida para um encontro no alto, no monte de Deus, e logo uma descida para um encontro nas profundezas, no fundo do meu coração. Statio (preparação), Lectio (leitura), Meditatio (meditação), Oratio (oração), Contemplatio (contemplação), Discretio (discernimento), Collatio (compartilhar) e Actio (ação) são os degraus dessa milenar tradição de ler a Bíblia. Esses passos constituem um movimento integrado em que cada degrau conduz ao outro. Passo a passo, lentamente saboreando cada passo em direção ao topo para, em seguida, descer ao vale, voltar ao concreto e ao cotidiano. Assim diz Guigo II: "A leitura Lectio é o estudo atento da Escritura feito com um espírito totalmente orientado para sua compreensão. A meditação Meditatio é uma operação da | ||
|
inteligência, que se concentra, com a ajuda da razão, na investigação das verdades escondidas. A oração Oratio é voltar com fervor o próprio coração a Deus para evitar o mal e chegar ao bem. A contemplação Contemplatio é uma elevação da alma que se levanta acima de si para Deus, saboreando as alegrias da eterna doçura". E completa: "A leitura leva à boca o alimento sólido; a meditação o corta e mastiga; a oração o saboreia; a contemplação é a própria doçura que alegra e recria". A Lectio Divina pode ser vista na perspectiva da encarnação do Logos:
1. Um anúncio que tem uma história não vem de repente, mas exige um preparo de longa data. Maria se prepara, se vulnerabiliza, se torna disponível para acolher a Palavra. É necessária a presença do Espírito que a encobre com o poder do Altíssimo. Maria está desperta e ativa para o mistério desse acontecimento incomum. Ela é fertilizada pelo Espírito. 2. Um tempo de gestação: são nove meses, um acolhimento nas entranhas, no escuro, no silêncio, um trabalho interior. Parece que nada está acontecendo, não parece produtivo. Tomamos consciência, estamos grávidos, mas uma parte ainda está inconsciente, escondida. Um processo, algo ainda pequeno, sem forma, algo que muitas vezes é desprezado, mas já é a semente de algo novo. 3. Tempo de parir, de dar à luz. O fruto do nosso interior. A semente é dele, mas tem a contribuição do nosso útero. Na parábola do semeador, a Palavra é semente e o nosso coração, a terra. Fica no escuro, no secreto durante algum tempo, para brotar e finalmente dar fruto. Palavra que habitou em nós e se torna palavra viva para o mundo. Palavra que se transforma em gesto, atitude, narrativa. | ||
|
A Lectio Divina, que também se tornou conhecida nos nossos dias como Meditação Cristã ou Leitura Orante, é a arte de ouvir o coração de Deus, dizia São Gregório Magno. O objetivo não é um estudo bíblico ou uma exegese. É leitura bíblica que nos conduz a uma experiência de encontro com Deus e a uma experiência de oração. Êxodo 33:11 diz: "O Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com seu amigo". O propósito da Lectio Divina não é simplesmente aumentar nosso conhecimento intelectual, mas nos levar a um encontro vivo com Jesus Cristo. Tal encontro não nos deixa ilesos, mas faz que nossa pobreza espiritual aflore, nossos pecados venham à tona, bem como nos indica o caminho da transformação da vida. Sem isso, podemos conhecer as Escrituras sem que elas penetrem nas dimensões mais profundas do nosso ser, para tocar nossa consciência, nosso coração, nossa vontade. Na leitura meditativa, a Palavra não é interpretada, mas recebida, uma palavra única, exclusiva, que nos ajuda a penetrar no "mistério, que é Cristo em vocês, a esperança da glória" (Cl 1:27). Na Lectio não empregamos a "força de vontade" ou uma disciplina da ordem da razão ou do esforço, mas lemos a Palavra para que ela surpreenda, para que toque a alma a partir de uma revelação pessoal, dirigida pelo Espírito por meio de nossa intuição, nossa imaginação, nossos afetos e sentimentos. Para ler a Bíblia meditativamente precisamos de um tempo de preparação, de corpo relaxado, de alma apaziguada, de espírito pronto e alerta. Começamos fazendo contato com o corpo, suas dores e tensões, procurando relaxar em uma posição confortável. Faremos, então, contato com a alma e seus muitos ruídos internos, procurando trazê-la de volta ao seu sossego (Sl 116:7: "Retorne ao seu descanso, ó minha alma, porque o Senhor tem sido bom para você!"). | ||
|
Oramos ao Senhor, em quietude, com serenidade, aguardando o Senhor (Sl 130:5: "Espero no Senhor com todo o meu ser, e na sua palavra ponho a minha esperança"). Então lemos a Palavra, sem forçar nada, deixando acontecer, nos entregando a ela, iniciando um diálogo com Deus no profundo da alma. Podemos manter um diário com nossas meditações, nossos eventos de alma, resgatando uma linguagem mais poética, mais metafórica, uma linguagem da alma, dos sentimentos, dos afetos. Davi tinha um diário, que se tornou o livro de Salmos, onde contava e cantava sua vida com Deus. Ler a Bíblia meditativamente significa fazê-lo como quem saboreia as palavras; significa saber parar quando um texto ou mesmo uma palavra nos toca, nos fala ao coração diretamente, nos fortifica; significa permanecer com essa palavra sem a necessidade de procurar outras, e tão longamente quanto ela se mover em nós, operar em nós, realizar em nós. Operar o quê? Realizar o quê? Gerar o quê? A alegria de viver, a segurança da presença de Deus, de sua salvação, de seu amor incondicional. Com a Reforma, rompemos com uma tradição permeada de equívocos como a Inquisição, venda de indulgências e um sacerdócio corrupto. Mas também perdemos muita coisa boa como a patrística, a mística medieval e a Lectio Divina. Ao enfatizar a compreensão racional das Escrituras, podemos acabar cortados de outras maneiras que Deus tem para falar conosco, mais intuitivas, que dependem mais da iluminação do Espírito Santo, o qual nos capacita a discernir a revelação divina. Conheci a Lectio Divina nos anos 1970, com o dr. Hans Bürki. Tenho, desde então, estudado mais acerca dessa prática espiritual; também a tenho praticado individualmente, e nos últimos vinte anos, ensino a pessoas e grupos interessados num amadurecimento espiritual que emerge do silêncio, da solitude, do recolhimento | ||
|
e de um desejo de maior intimidade com Deus, consigo e com o próximo. As meditações reunidas neste livro constituem fruto dessa experiência.
Osmar Ludovico da Silva Cabedelo (PB), inverno de 2007 | ||