Supercrentes

Paulo Romeiro

Ao pastor Natanael Rinaldi,

soldado do Senhor Jesus Cristo, cuja vida tem sido dedicada à apologética cristã, por meio da qual tem incentivado muitos a apresentar a razão de sua esperança. A eternidade revelará os frutos de seu trabalho.


Sumário


Prefácio à primeira edição 9

Prefácio à segunda edição 11

Introdução 15

1. Raízes da distorção 19

2. As estrelas da Confissão Positiva 33

3. A Confissão Positiva à luz da Bíblia 45

4. Humanos ou deuses? 77

5. Quem é o Filho do Homem? 85

Conclusão 99

Bibliografia 103

Sobre o autor 109


Prefácio à primeira edição


Dúvidas profundas e perguntas importantes confrontam os cristãos brasileiros que lêem os livros de Kenneth Hagin ou assistem aos programas de televisão, dvds e vídeos de Valnice Milhomens. Estes e outros proponentes da chamada "teologia da prosperidade" desafiam o crente a "crer o incrível" e transformar a realidade visível e palpável na realidade da fé.

Nada mais importante, em uma conjuntura como esta, do que parar e pensar numa teologia bíblica. Estamos numa hora crítica em que precisamos avaliar e julgar os ensinamentos contundentes dos pregadores da boa vida, isenta de problemas sérios que todo ser humano tem de enfrentar. Devemos agradecer ao Senhor a maneira equilibrada como o autor, Paulo Romeiro, desvenda as raízes históricas e filosóficas deste movimento tão popular no Brasil evangélico de hoje. Aqui temos, ademais, uma valiosa contribuição bíblica que provê uma luz clara no espesso nevoeiro criado pela Confissão Positiva.

Não somente a experiência do apóstolo Paulo, que teve de agüentar o "espinho da carne" por ele mesmo chamado


"mensageiro de Satanás" , mas também a dos homens mais consagrados da história criam dúvidas sobre uma interpretação que faz de todo sofrimento algo contrário à vontade de Deus. E o que dizer da morte? A paulatina perda das forças pela velhice e a chegada do "último inimigo" devem também ser repelidas pela "confissão da fé"? Que o leitor julgue com quem está a verdade.

Felicito o autor que, com graça e humildade, desempenha o importantíssimo papel de apologista para a ortodoxia histórica.

Esperamos que este livro tenha grande aceitação, trazendo de volta à fé bíblica os que foram iludidos. Oremos como o Senhor nos ensinou: "... faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mt 6:10).

A ele, pois, seja toda a glória!

Russell Shedd


Prefácio à segunda edição


Desde que foi lançado, em 1993, o livro Supercrentes não parou de ajudar e incomodar a igreja evangélica brasileira.

Este livro é fruto de uma mente atenta que soube captar como ninguém o momento terrível que assolava (e ainda assola) o arraial evangélico e de uma editora que leva a sério sua missão: editar e distribuir os melhores textos de conteúdo cristão, servindo como instrumento para a transformação de vidas. Essa parceria gerou este best-seller que, há mais de uma década na lista dos mais vendidos, continua a cumprir seu papel de alertar os cristãos sobre a necessidade de atentar aos modismos que encantam o meio evangélico, mas que padecem de boa teologia e excelente fundamentação bíblica.

Mais que isso: Supercrentes influenciou o surgimento de uma geração crítica na igreja. Mas não a crítica pela crítica, o que é negativo. Estamos falando de gente que pensa antes de dar assentimento a qualquer nova doutrina ou a qualquer novo líder, por mais carismático que seja. É a geração do "ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é


bom" (1Ts 5:21; NVI) e do "não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus..." (1Jo 4:1; NVI).

Quando foi lançado, Supercrentes foi devorado com avidez pelos leitores que sofriam na pele os resultados negativos advindos da aplicação da Confissão Positiva, com sua teologia da prosperidade, segundo a qual o cristão, como filho do Rei, deve viver uma vida de prosperidade material e perfeita saúde física e emocional. Tudo isso seria obtido pelo poder da fé, pelo ato de decretar e declarar, tomando posse da bênção. O "tudo posso naquele que me fortalece" (Fl 4:13) foi levado a ferro e fogo. Os filhos da Confissão Positiva se viam como "supercrentes", praticamente inatingíveis.

Muitos anos se passaram desde o lançamento de Supercrentes. O tempo revelou o valor inestimável e atemporal deste livro. Constatou-se o óbvio: a aplicação da teologia da prosperidade não gerou uma igreja rica e poderosa; produziu, sim, líderes ricos, poderosos e gananciosos, e cada vez mais distanciados da simplicidade de Cristo, enxergando a vida piedosa como meio de ganho. Ávidos pelo poder, criaram megaigrejas, compraram mansões, tornaram-se celebridades. O poder os corrompeu. Sua teologia não produziu crentes melhores, mas crentes doentes, confusos e em eterno conflito, pois estes não viam os resultados práticos da aplicação dos princípios que faziam de seus líderes o que eles mesmos queriam ser.

É interessante observar que estamos vivendo um período como o da pré-Reforma. Alas da igreja evangélica estão cada vez mais sedentas e possuídas pelo poder temporal e


pelas coisas do mundo. Alianças políticas são traçadas a fim de atingir esses objetivos. Muitos afirmam que querem "O Brasil para o Senhor Jesus", mas suas práticas revelam que querem o Brasil do Senhor Jesus.

A mídia vem se fartando com a quantidade de matéria-prima na área ética produzida por essa teologia corrompida. Foi-se o tempo em que a designação "evangélico" era símbolo de seriedade e respeito. Hoje, é motivo de chacota. É lamentável e vergonhoso ver pastores, bispos e apóstolos sendo acusados de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, entre outras práticas desse naipe. A exposição de deputados da "bancada evangélica" do Congresso Nacional envolvidos no escândalo da máfia das sanguessugas exemplifica essa ignomínia. Os exemplos pululam por aí.

Compartilhamos os mesmos anseios de Paulo Romeiro: queremos uma igreja mais centrada nas Escrituras, que honra e serve a Deus, em vez de fazer do Senhor uma espécie de gênio-da-lâmpada; uma igreja cuja ética influencie positivamente a sociedade; uma igreja de pessoas que ainda estão em obras, buscando melhorar a cada dia, sendo conformadas diariamente à imagem do Filho de Deus.

O grande mérito de Supercrentes é o fato de ser um livro atualíssimo. O rumo da prosa não mudou desde a publicação em 1993. É por isso que a Mundo Cristão, com ousadia e ciente de seu papel de influenciar a igreja e a sociedade brasileira, oferece uma segunda edição deste livro, já reimpresso diversas vezes. Além de uma revisão textual, alguns dados foram atualizados.

Os Editores


Introdução


Minha principal motivação para escrever este livro foi atender o grande número de pedidos de cristãos de todo o Brasil, confusos com o que ouvem constantemente nos meios de comunicação, nas igrejas ou nas escolas bíblicas sobre o "outro evangelho" da Confissão Positiva.

Vários escritores no Novo Testamento alertaram sobre o perigo que a igreja enfrentaria com relação aos desvios doutrinários. Paulo advertiu os líderes da igreja de Éfeso:

Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles.

Atos 20:28-30

Inspirado pelo Espírito Santo, o apóstolo Pedro escreveu:


Assim como no meio do povo surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas práticas libertinas, e, por causa deles, será infamado o caminho da verdade.

2Pedro 2:1-2

Infelizmente, essas palavras cumprem-se em grande escala nos dias atuais. Por essa razão, é importante ensinar aos cristãos que há uma fonte de autoridade objetiva: a Bíblia Sagrada. Ela é a fonte da "sã doutrina". É preciso conhecê-la a fim de não se envolver com o que o apóstolo Pedro classificou de "heresias", ou seja, ensinos contrários ao "caminho da verdade", a fé cristã.

Creio que seria benéfico para o leitor apresentar aqui uma definição de seita. De acordo com a Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã

... "seita" vem do latim secta, termo derivado do particípio passado de secare (cortar, separar) ou de sequi (seguir), e tem o sentido de partido, escola, facção [...] A palavra "seita" tem sido normalmente usada para se referir a grupos que se separam de outros já existentes, como foi o caso dos primeiros cristãos que se separaram do judaísmo [...] Nos círculos evangélicos, porém, o termo seita tem adquirido o sentido de grupo herético.1

01 Walter A. Elwell. Vol. III, p. 375-376.


Há outras definições propostas. Para Karen van Baalen, seita é "qualquer religião tida por heterodoxa ou espúria".2 Já Walter Martin, fundador do Christian Research Institute, define seita como "um grupo de indivíduos reunidos em torno de uma interpretação errônea da Bíblia, feita por uma ou mais pessoas".3

São muitos os que se infiltram hoje entre os cristãos, de Bíblia em punho, parecendo crer exatamente como cremos. No entanto, um estudo mais cuidadoso revelará que suas posições doutrinárias são inaceitáveis à luz das Escrituras e do cristianismo histórico ortodoxo. Podem ser citados aqui, como exemplos, a Igreja Local de Witness Lee (Editora Árvore da Vida), o Conjunto Voz da Verdade (que nega a doutrina bíblica da Trindade) e ensinos antibíblicos, como maldição de família, possessão demoníaca em cristãos e outras distorções doutrinárias na área de batalha espiritual.

Em uma sociedade relativista como a nossa, não é tarefa fácil expor desvios doutrinários, principalmente quando surgem e se espalham no meio evangélico. Fácil não é, mas é necessário. O cristão não faz isso por prazer, mas porque essa obrigação lhe foi imposta (cf. Jd 3; 1Co 9:16).

Alguns desses desvios serão tratados neste livro. Com muita tristeza, reconheço que esses desvios são promovidos por pessoas que amamos e consideramos irmãos em Cristo. Em contrapartida, nenhum sentimento de afeição pode estar acima da integridade da Palavra de Deus.

02 O caos das seitas, p. 282.

03 O império das seitas, vol. 1, p. 11.