3.5.06

Primícias

...Seis meses depois estávamos viajando para o sul, José e eu,
porque o governador romano da Síria queria uma lista oficial de
todos os judeus da Judéia. Uma novidade e um novo procedimento:
estávamos prestes a pagar impostos em dinheiro para o império.
Tinha você, meu belo Yeshi, que era o melão dentro de mim. Eu
sou forte, mas nunca fui grande. Eu o carregava abaixo das costelas,
projetando-se para a frente.
José me ergueu e colocou nas costas de nosso jumentinho. Havia
cachorros maiores do aquele jumento. Eu tinha de manter os pés
levantados. Alojei as mãos sobre a barriga para aliviar a pressão.
Você era um peso tão grande contra minha bexiga que tínhamos de
parar de hora em hora, e a cada parada eu regava outra plantação
de alguma fazenda. Eu procurava pés de assa-fétida nas orlas das
plantações e juntava as folhas para secar antes que as minhas dores
começassem. Então, de volta ao jumento, José mantinha uma mão
sobre meu ombro para ajudar no equilíbrio, enquanto avançávamos
para o sul pela estrada nas costas da montanha. Bem, tínhamos de ir
a Belém porque meu marido é descendente do Rei Davi, e Belém é
onde Davi nasceu. Os romanos nos queriam nas cidades de nossos
ancestrais.
Era tarde avançada do quarto dia quando passamos por
Jerusalém.
Ao anoitecer, precisamente quando entrávamos pelos portões de
Belém, o jumento tropeçou, e minha bolsa se rompeu. O jumento
virou a cabeça em minha direção, mais pelo cheiro do que pela
umidade, eu acho. Ele sabia. Imediatamente você quis sair. Os
músculos de meu estômago apertaram e seguraram com tanta força
que baixei a cabeça e gritei:
— José! Ai, José!
— Mim?
— O bebê está chegando!
— Espere! — ele disse. — Espere. Precisamos de um lugar para o
bebê. Espere!
Meu querido brutamontes! Ele saiu correndo pesadamente,
deixando-me nos portões do vilarejo, depois voltou correndo,
enrubescendo, e puxou o jumento atrás de si. Ele bateu nas portas de
casas e hospedarias.
— Um bebê! — ele urrava, assustando crianças e cidadãos
cumpridores da lei.
— Está chegando! — ele berrava. — Precisamos de um quarto!
As pessoas batiam a porta na cara dele. Ou nem chegavam a
abrir. E José era obediente demais para insistir.
Eu tinha cãibras tão intensas nas costas que mal conseguia falar.
— Qualquer pátio serve — eu resmunguei. — Eles não têm como
negar um nascimento!
Ele tentou golpear a porta de outra casa. E outra.
Você pressionou meu ventre, e não consegui me conter, dei um
berro terrível, e José começou a balbuciar confusamente. Soltou as
rédeas. Então, o jumento — sozinho — trotou para trás de uma
hospedaria de dois andares, prosseguiu pela escuridão a uma
caverna pequena e depois de volta através da caverna a um lugar
onde estavam amarrados os animais dos viajantes.
José veio correndo atrás, bufando, implorando perdão. Ah, Yeshi,
aquele carpinteiro rude que teve a gentileza de adotar você...
Fui ríspida com ele.
Disse que aquele lugar era tão bom quanto qualquer outro. Me
ajude a desmontar! Acenda a lâmpada! Deite-me em palha limpa.
Arranje alguma coisa para eu apoiar as costas. José (eu disse), vou
erguer a túnica e tirá-la pelas costas. Esmague as folhas de assafétida.
Misture em óleo e um pouco de vinho. Não! Não passe em
mim! Eu vou beber! Para apressar o trabalho de parto.
Obrigada. Obrigada.
Abra minha saia. José, olhe pra mim! Não há vergonha nessa
nudez. Não há outra parteira além de você. Pegue panos limpos em
nossas coisas. Um tecido enrolado. Agora rasgue minha túnica e
torça num cordão estreito. Traga sua faca. Passe a lâmina pela
chama da lâmpada.
Agora, agora, agora, José, esfregue minhas costas. Não! Mais
para baixo! Com mais força! Ai, como dói!
Você sabe cantar, meu marido? Já cantou alguma doce canção?
Ah! Ai, ai! Lá vem. Erga meus ombros. Aí vem o pobrezinho!
Aaai! — Ainda não pode vir. Ele vai me rasgar se vier. José, coloque a
mão aqui. Aqui, José! A palma de sua mão na cabeça dele. Segure,
segure, segure o bebê aí! Espere!
Ah, Senhor Deus, olhe por seu filho! Faça com que todas as
minhas aberturas relaxem.
Espere... espere. Tudo bem. Agora! Devagar. Aaaaaai! Ah! Deixe o
pequenino entrar devagar neste mundo. Tudo bem. Sim. Sim. Sim.
Aaaai...
Ah, Yeshi! Ah, bebezinho... sim, sim, chore. Faça de sua língua
uma colher. Chore a vastidão e a dor do mundo. Chore o quanto
quiser.
José? Amarre a trança de linho no cordão na barriga dele. Sim.
Isso mesmo. Agora pegue a faca. Aqueça na chama. Corte o cordão.
Não vai machucá-lo, não. Nem a mim. Pode cortar.
Ai-ah! Ah!
Não, José. Não há nada que ter medo. Só falta sair uma coisa. Os
animais sabem. A placenta. Eles vão comer, se você não cuidar.
Enterre. Quero que você enterre.
Veja, veja, veja. Yeshi, bebê, aqui está você.
Agora, meu marido, lave o menino. Envolva-o no pano,
embrulhe-o apertado como ele estava em meu ventre. Embrulhe um
mundo bom, o doce mundo de nosso Criador, ao redor dele.
E o dê para mim. Vou dar-lhe o peito.
Ah, José, você é, como parteira, um brutamontes maravilhoso!
Jesus é corado e saúdavel. Está sorrindo para o papai dele, seu
maravilhoso abba. Está vendo? Está vendo?

Assim Walter Wangerin Jr apresenta Maria (Mim) contando a Jesus (carinhosamente tratado por ela como Yeshi) como foi o nascimento do filho de Deus. A história romanceada de Jesus você poderá conhecer em junho, em O livro de Jesus. Mais detalhes, em breve, no site da MC.