17.10.06

EQUILIBRIUM

Como faço quase todo fim de semana, lá estava eu na “loucadora”, quando li a seguinte frase audaciosa da capa de um DVD: “Esqueça Matrix!”. Será? Fui conferir. O filme? “Equilibrium". Nunca havia ouvido falar nesse ilustre desconhecido (e olha que a película é de 2002!). O pobre-diabo foi um fracasso de bilheteria; dos trinta milhões de dólares gastos, só faturou um milhão. Como diria um típico carioca: É mole?

Mas apesar do exagero do marketing da distribuidora (a culpa é sempre do marketing), eu gostei do filme. É bem interessante. É um prato cheio para os filósofos de plantão (ou seria de Platão?). Deixa pra lá...

A ficção situa-se algum tempo depois da Terceira Guerra Mundial. As calamidades levaram um conselho a concluir que a humanidade não sobreviveria a uma quarta. Seria preciso eliminar a raiz de todos os males: a capacidade de sentir. Isso mesmo, todo e qualquer sentimento, nobres ou ignóbeis. A fim de erradicá-la, foi criada a droga Prozium. Contravenção era não tomar as doses diárias obrigatórias. Dizer não ao “baseado” significava pena de morte sumária. Nenhuma forma de arte era tolerada: a literatura, a música, a poesia, a pintura, entre outras. Todas foram banidas. Para garantir o cumprimento das normas, o Clero Grammaton, oficiais de elite especialmente treinados e praticamente invencíveis, sob o comando do “Pai”, suprimiam qualquer forma de expressão criativa e a tentativa de aflorar as emoções: fotos, perfumes, objetos antigos que enlevassem o espírito etc. Mas algo extraordinário aconteceu: o mais respeitado e temido clérigo decidiu não tomar a droga. E agora? Assista ao filme e você verá. É bom demais da conta!

Eu não quero propor aqui nenhuma discussão sobre uma teoria da emoção (quem sabe?). Muitos filósofos já queimaram muito as pestanas discorrendo sobre o papel das emoções na vida dos indivíduos. Mas não custa nada pensar sobre como a igreja tem se comportado em relação às emoções. Há aquelas que incentivam somente as emoções que produzem prazer espiritual ou que tenham esse caráter; tudo o mais é mero mundanismo (e isso diz respeito especialmente à música e à dança). Outras pregam a supressão das emoções. Elas tentam a todo o custo suprimir a humanidade que há em nós. Para garantir a pureza espiritual da congregação, o “Clero Grammaton” dessas igrejas vigia e exerce poder cerceador sobre os membros infratores. Não é permitido às pessoas exercer sua liberdade e arcar com as conseqüências de seus próprios atos. No outro extremo, há aquelas que liberam geral, como se não fôssemos prestar contas a Deus algum dia.

Não há dúvida: falta Equilibrium. E equilíbrio é, mesmo sentindo todas as emoções possíveis ao gênero humano pecador (boas e más, nobres e ignóbeis), não permitir que nenhum dos lados tenha o domínio de nosso ser. O equilíbrio impede que nos tornemos escravos tanto dos bons quanto dos maus sentimentos. Os escravos dos bons sentimentos, num golpe fatal, são implacáveis, quase desumanos; são intolerantes; pretensiosos, soberbos. Parecem bons aos próprios olhos, pois em nome de bons sentimentos, fazem coisas deploráveis. Jesus mesmo disse: “... virá o tempo quando quem os matar pensará que está prestando culto a Deus” (Jo 16:2; cf. Rm 10:2-4; Fp 3:6). Derrubam cinemas, destroem pistas de dança, mas erguem altares à soberba e megalomania. Orgulham-se de hospitais, de creches, de escolas, mas não são humanos na hora que mais se precisa de humanidade entre nós: no momento de dor, de falhas morais, de aceitação quando fazemos o inaceitável. A igreja não pode ser um estado ditatorial, mas um ambiente de perdão, de serviço, de encorajamento, de oração, de aceitação, de amparo, de comunhão, de admoestação e, sobretudo, de amor; um ambiente perdoador, no qual as pessoas se sintam à vontade para tratar de suas feridas, de suas falhas morais, de suas penúrias, de suas lutas e de seus dissabores. Um lugar em que possam ouvir: “Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais” (Jo 8.11). Enfim, uma igreja com Equilibrium.
No labor editorial,
AM