Mundo Cristão - Gerência Editorial

21.1.07

Intolerância

Sempre achei uma estupidez a briga entre ciência e fé. E creio que há estúpidos de ambos os lados. O recrudescimento do fundamentalismo religioso nos EUA e sua contumaz intolerância parece ter acirrado ainda mais os ânimos e favorecido uma leva de novos e pesados ataques à religião.

Uma das reações mais virulentas vem de um grupo de cientistas e filósofos que decidiu botar a boca no trombone. A briga ainda se dá no eixo norte, mas já começou a respingar por aqui. Seus maiores expoentes são Richard Dawkins (autor de The God Delusion - a ilusão ou o delírio de Deus, que deve ser publicado pela Cia das Letras), Sam Harris (Letters to a Christian Nation – Cartas a nação cristã) e Daniel Dennett (Quebrando o encanto – A religião como fenômeno Natural – Globo).

Dawkins, talvez o mais rancoroso de todos, qualifica Deus como sendo "homófobo", "racista", "infanticida", "genocida", "pestilento", "megalomaníaco", "sado-masoquista" entre outros termos nada elogiosos. Ele defende que Deus é um engodo e pretende provar sua tese cientificamente.

O assunto tem sido destaque em diversas revistas e jornais. É capa da edição mensal da Galileu, ao passo que Veja, na edição dessa semana, publica entrevista com o cientista Francis Collins, coordenador do projeto Genoma e autor do livro The Language of God (A linguagem de Deus) que defende a possibilidade de convivência pacífica entre fé e ciência.

Marcelo Gleiser, ateu, (apesar de sua ascendência judaica), escreveu recentemente no caderno Mais, da Folha, sua avaliação sobre o litígio. Ao analisar Dawkins, Gleiser destaca que “para ele, a ciência é um clube fechado, onde só entram aqueles que seguem os preceitos do seu ateísmo, tão radical e intolerante quanto qualquer extremismo religioso. Dawkins prega a intolerância completa no que diz respeito à fé, exatamente a mesma intolerância a que se opõe.”... e observa: “a atitude belicosa e intolerante do cientista britânico só causa mais intolerância e confusão. Seu grande erro é negar a necessidade que a maioria absoluta das pessoas tem de associar uma dimensão espiritual às suas vidas.”

Creio que tanto o trio raivoso quanto muitos de nós que nos deliciamos com a intolerância prestamos um péssimo serviço. Num mundo tão atribulado, precisamos de pacificadores. Fazer o contrário, não passa de estupidez.

No Youtube e no Google Videos há entrevistas com o Dawkins e outras matérias sobre o assunto. Há também um artigo do Mark Carpenter, presidente da MC, publicado na Ultimato sobre a questão.

Lendo algumas matérias sobre os três senhores tive a impressão de que os mesmos têm todas as condições para transformarem-se em grandes evangelistas do cristianismo, pelo menos é o que a história demonstra. De tanto negarem a Deus, podem perfeitamente estar fazendo o caminho para conhecê-lo.

Oremos por eles!

19.1.07

“É impossível chegar lá sozinho”

Não sei quem criou esse slogan, mas o pensador foi extremamente feliz.

Essa frase me veio à mente quando escrevi neste blog o texto “Quem faz sua cabeça?”, sobre o livro A biblioteca de C. S. Lewis, que publicamos em novembro.

Todos falam da intelectualidade de Lewis, de seu gênio inspirativo etc. (e estão certíssimos!). Mas os antecedentes intelectuais de Lewis revelam esta nobre verdade: no campo da produção intelectual nenhum de nós pode chegar lá sozinho. O que somos e pensamos é resultado de tudo o que vimos, lemos e ouvimos. Incorporamos os discursos alheios, e suas falas agora são nossas. É uma espécie de usucapião do terreno epistemológico. E esse é um processo legítimo (bem diferente de plágio).

Lembro-me de como eu era arrogante a ponto de achar que ninguém poderia mexer nos meus textos. O editor para mim era uma figura do mal. Sem exageros. Há muitos anos, cheguei a ter uma briga homérica com alguém que se atreveu a interferir na minha produção literária. Por desconhecer a “nobre verdade”, eu não admitia que alguém mexesse no meu queijo.

“Meus textos.” Muito do que chamamos de “meu” é, na verdade, “nosso”. Agora sou fã do plural majestático. É bom folhear um livro e dar de cara com os “Agradecimentos”. Muitos autores agradecem pelas opiniões e sugestões que receberam. Eles sabem que seria impossível chegar lá sozinhos.

Nesse time de colaboradores, há uma figura que quero destacar: o editor. Esse profissional é um auxiliar do autor. Seu juramento é melhorar o original. Ele vai além das emendas gramaticais e estilísticas. Sua função é transformar um texto em livro. Como um tutor que se responsabiliza pelo que lhe foi confiado, ele quer que o livro se desenvolva bem em todos os aspectos. É um trabalho rigoroso. E esse profissional tem em vista uma figura importantíssima: o senhor leitor, que merece toda a consideração do mundo. Com isso, ganham o autor, a editora e o leitor.

Infelizmente, há autores que se melindram com as alterações propostas (em alguns casos podem ter razão; afinal, ninguém é perfeito). Alguns chegam ao extremo de querer impedir o andamento do processo editorial. Eles ainda não descobriram a “nobre verdade”. No processo editorial, a força não está isolamente em nenhuma das partes, mas no todo. É difícil chegar lá, mas é impossível chegar lá sozinho.

No labor editorial,

AM

9.1.07

Ver no Escuro

Segue artigo publicado na edição de 30/12, do O Globo, do Eduardo Rosa Pedreira, autor do livro Inveja e Contentamento.

Ver no Escuro

As conseqüências mais graves da onda de corrupção que tem assolado o nosso país desde longa data, não são aquelas que nossos olhos podem ver, encontram-se no mundo subjetivo, no inconsciente coletivo, “lugar” onde o povo cultiva seus símbolos e valores. Tome-se por exemplo desta verdade, os recentes escândalos envolvendo repasses generosos de vultosas verbas para ONGS suspeitas de servirem como ponte de financiamento ilícito, posto que, boa parte desses recursos retornava a sua fonte em forma de doação para campanhas políticas.

Ao transformar ONGs em um manto para esconder manobras escusas, dá-se mais um tiro no ideário simbólico da nossa nação. Isto porque, as ONGs simbolizam, ou pelo menos simbolizavam, a nobre luta por um ideal de sociedade que passava pelo caminho da ética. Lembremos que foi por constatar a incapacidade e ineficiência do estado brasileiro de cumprir suas obrigações mais elementares (saúde, educação, transporte...), que um número significativo de cidadãos começou a se organizar não governamentalmente numa bela tentativa de unir a força do poder público, os recursos da iniciativa privada e o voluntariado, a fim de formar uma grande aliança que fosse capaz de minorar os efeitos do nosso caos social. Surgia assim o chamado terceiro setor trazendo ares de esperança e se constituindo numa referência real e simbólica de que ainda era possível crer em organizações sociais não manchadas pela corrupção. Agora depois dos referidos escândalos, parte da população que já lançava um olhar de suspeição sobre as ONGs, encontra as melhores razões para delas desconfiar.

Assim começa a morrer mais um símbolo ético no nosso país e aí está a gravidade das ilicitudes cometidas, a dilapidação do patrimônio simbólico do Brasil, levando-nos a desconfiar de tudo e de todos, colocando num mesmo saco todas as farinhas! Não bastasse a pobreza social que nos cerca, assistimos como fruto da corrupção o gradativo empobrecimento existencial do nosso povo, visto que um país torna-se ainda mais pobre quando as entidades que simbolizam pureza ética e esperança são destruídas pelo carimbo da corrupção.

Se guardadas bem as devidas proporções da comparação, é isto que igualmente tem acontecido no âmbito da fé. A igreja, outro símbolo de integridade no imaginário coletivo, vê seu púlpito maculado por discursos eivados de manipulação psicológica em nome de Deus, aparece presente nas manchetes dos jornais protagonizando escândalos econômicos e administrativos dignos de intervenção judicial, torna-se plataforma para pessoas lançaram-se na construção de impérios pessoais marcados por fortes posicionamentos anti-éticos. O desdobramento deste quadro não poderia ser mais grave: na vida cotidiana as pessoas assumem uma atitude de cinismo desesperado diante da vida, na qual se sentem a vontade para “roubar”, pois afinal todo mundo rouba, até mesmo os símbolos de valores como as ONGs, as igrejas...

Diante de tal cenário nunca foi tão premente o desafio de interpretar. Somente o discernimento, que etimologicamente significa ver no escuro, pode nos ajudar a evitar generalizações infantis e perceber um veio de resistência ética, pequeno é verdade, neste mar de corrupção no qual estamos inseridos. Por isso me solidarizo aqui com todos aqueles que trabalhando no terceiro setor não se prostituíram diante das ofertas fáceis e mantêm-se fieis aos ideais mais nobres de continuar sendo instrumento de vida, paz e bem neste país tão marcada pela morte. Esta santa resistência nos lembra que o pleno crescimento deste país passa pela recuperação do seu patrimônio simbólico. E isto acontecerá somente quando as organizações que por natureza são referências da nossa sociedade, assumirem sua responsabilidade de modelos inspiradores para uma revolução ética. Mas enquanto elas forem reféns de pessoas inimigas do bem público, resta-nos pouca, porém, imorredoura esperança!

EDUARDO ROSA PEDREIRA é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca e professor de ética corporativa da Fundação Getúlio Vargas. E-mail: prof.edubadufgv@terra.com.br

3.1.07

Lula, o plágio e a lição da borboleta

A coluna Painel, da Folha, informa que após obter cerca de 300 sugestões, o ministro Luiz Dulci (Secretaria Geral), responsável pelo discurso de posse do presidente, recebeu o pedido de Lula para incluir a "historinha da borboleta". O presidente, entretanto, omitiu a autoria do texto.

Já Ilmar Franco, no O Globo, compara o trecho do discurso com o poema apresentado por Howard Hendricks, na página 102 do livro O outro lado da montanha. Segundo o que ressalta o colunista, o poema é atribuido por Hendricks a um veterano da Guerra Civil americana.

A indicação de que a fonte do discurso teria sido o livro lançado pela MC foi dada pelo gerontólogo Samuel Rodrigues de Souza.

Eis o poema:

“Pedi forças para que pudesse conquistar;
Ele me fez fraco para que eu pudesse obedecer.
Pedi saúde para realizar grandes coisas;
Ele me deu a enfermidade, para poder fazer coisas melhores.
Pedi riquezas para que pudesse ser feliz;
Recebi pobreza para poder ser sábio.
Pedi para receber o louvor dos homens;
Recebi fraqueza para sentir a necessidade de Deus.
Pedi todas as coisas para que pudesse desfrutar da vida;
Recebi vida para poder desfrutar de todas as coisas.
De que tudo que pedi, nada recebu; do que precisava, tudo recebi.
Minha prece foi respondida.”

Se você fosse indicar um ou mais livros do catálogo da Mundo Cristão, qual(is) indicaria?