Encontros entre editores e agentes literários. Contratos para aquisição de direitos. Negócios apalavrados no corredor. Traduções prometidas em várias línguas. Muitos cães a um osso (o mirífico e talvez ainda desconhecido best seller que pode vir a fazer sombra aos enigmas de Dan Brown, ao feiticeiro de J. K. Rowling ou ao Segredo de Rhonda Byrne). A partir de hoje e até domingo, nos seis pavilhões do imenso Centro de Congressos de Frankfurt, 280 mil profissionais do livro vão tentar fechar, em cinco dias, os contratos e contactos indispensáveis para garantir os títulos que invadirão as livrarias nos próximos meses.
Considerada o maior acontecimento do mundo em termos editoriais, a Frankfurter Buchmesse é esmagadora na escala e quase desumana no seu gigantismo, como atestam os números fornecidos pela organização: 7448 stands individuais numa área de quase 172 mil metros quadrados; 108 países participantes; 391 652 títulos expostos (mais 9186 do que no ano passado, representando um acréscimo de 2,5%); e uma previsão de visitas a rondar os 300 mil (em 2006 foram 286 621).
A isto há que juntar os cerca de 2500 acontecimentos da agenda oficial, entre encontros com escritores, debates, colóquios e apresentações de livros. Um calendário de deitar os bofes pela boca, a exigir uma disciplina férrea por parte de quem se aventura nesta Babel, quase sempre com o tempo contado. Se excluirmos o previsível frisson de quinta-feira, quando o anúncio do novo Nobel da Literatura, em Estocolmo, provocar as habituais ondas de choque em Frankfurt, os momentos altos do certame devem acontecer durante as conferências das duas estrelas maiores da edição deste ano: Richard Dawkins, o cientista britânico que escreveu o incendiário ensaio A Ilusão de Deus, e o ensaísta italiano Umberto Eco, um dos mais estimulantes pensadores da actualidade, cuja História do Feio está prestes a ser editada em Portugal pela Difel. Está igualmente prevista a presença dos escritores Richard Ford, Günter Grass, Fay Weldon, Nuruddin Farrah, Elif Shafak e Zeruya Shalev.
Embora não haja propriamente um tema escolhido para cada edição da Feira, este ano todas as atenções vão centrar-se no modo como o mercado livreiro pode e deve fazer uso das potencialidades criadas pelas novas tecnologias. Os formatos digitais, assumidos como a principal prioridade da indústria do livro, vão ser amplamente discutidos em vários fóruns e atingirão este ano, pela primeira vez, uma quota de 30% no total dos produtos exibidos na Feira.
Já esta tarde, haverá uma mesa- -redonda sobre e-books, e-marketing e oportunidades de negócio na chamada Web 2.0 (a Internet que apela à interactividade com os leitores), em que participam os responsáveis máximos de algumas editoras de referência: John Mackinson, da Penguin; Brian Murray, da HarperCollins; Peter Olson, da Random House; e Richard Charkin, da Holtzbrinck (o primeiro a entrar na blogosfera).
Jurgen Boos, o director da Feira, garante que "Frankfurt costuma ser um barómetro das novas tendências" e que este ano não será excepção. No Web 2.0 Living Room, haverá espaço para os bloggers trabalharem à vontade e os visitantes participarem na produção de podcasts.
Representado por 23 editoras, Portugal ocupará um espaço de apenas 200 metros quadrados, sem expectativa de obter resultados sequer comparáveis com os anos dourados de 1997, quando foi país-tema, e 1998, quando Saramago soube em Frankfurt que ganhara o Nobel.
Nesta edição, o "convidado de honra" é a cultura catalã. Em 2008, será a Turquia; em 2009, a China; e em 2010 a Argentina.