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Etnocentrismo, relativismo cultural e missões

Entrevista exclusiva com Edward Gomes da Luz, presidente da Missão Novas Tribos do Brasil

Você tem curiosidade de saber mais sobre o trabalho missionário entre as comunidades indígenas? Quer conhecer as bases que motivam tal atuação e alguns pontos de polêmica em relação ao assunto? Gostaria de obter informações sobre a preparação para o trabalho nas aldeias ou conhecer algumas formas de ajudar?

Então, leia a entrevista exclusiva que a MC fez com Edward Gomes da Luz, presidente da Missão Novas Tribos do Brasil, uma das principais agências de formação missionária do país. No bate-papo, Edward divide com nossos leitores informações curiosas sobre o trabalho de evangelização entre os indígenas, fala sobre as dificuldades do dia a dia e compartilha dicas úteis para quem deseja ir ao campo e dedicar-se às missões. Confira!

Mundo Cristão: É possível anunciar o evangelho aos povos indígenas e ao mesmo tempo respeitar suas raízes culturais? Como?

Edward Gomes da Luz: Sim, é possível. O grande desafio do missionário é conhecer a cultura do povo com qual vai trabalhar. Para isso, ele tem que ser orientado/capacitado a imergir na cultura e fazer uma análise da mesma. Falar fluentemente a língua é apenas uma parte do escopo cultural.

A Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB) tem um programa chamado ACL – Aquisição de Cultura e Língua que capacita o missionário a adquirir conhecimento nessa área. O “como” é respondido na apresentação do Evangelho.

Ele precisa ser apresentado cronologicamente,

criando um alicerce cultural, e sobre ele ir edificando as estruturas para o surgimento do Cristo Salvador. Essa forma de pregar o Evangelho faz com que aspectos culturais, dentro da perspectiva mundial, sejam assimilados pelo povo-alvo, diminuindo grandemente a possibilidade de sincretismo religioso.

O grande desafio é levar a semente do Evangelho sem a “casca” cultural do pregador/missionário.

Por que muitos antropólogos se opõem à atuação missionária? Qual é o principal erro que eles cometem ao interpretar o trabalho dos missionários nas tribos indígenas?

Uma resposta objetiva: Muitos não creem na mensagem do Evangelho e, por isso, não veem a necessidade de apresenta-lo a outras culturas.

Existe também uma orientação clara dentro da antropologia, principalmente sob a orientação da ABA – Associação Brasileira de Antropologia, que é contra a pregação do Evangelho aos povos indígenas.

Quando uma prática cultural pode ser considerada nociva, a ponto de justificar a interferência por cultura diferente? Possui exemplos factuais para dar?

Principalmente, se ela atenta contra a vida. A vida é um bem maior e nenhuma cultura tem o direito de tirá-la. Outro aspecto interessante é que precisamos diferenciar o que é “cultura” e o que é maldade e abuso de autoridade de um ou outro indivíduo.

Um exemplo é o infanticídio praticado por muitas etnias indígenas ou a pedofilia praticada por “caciques” e por “pajés” em determinadas tribos. Sempre é preciso muita sabedoria para tratar desse tema. As objeções, inexplicavelmente, vem de agentes externos, estudiosos que criticam a interferência.

Por que é importante anunciar o Evangelho aos indígenas?

Porque são seres humanos e isso os torna alvo da graça divina. Não são “animais” a serem preservados, mas humanos, que têm uma vida espiritual intensa. Outro fator reside na própria ordenança de Jesus: “Vão ao mundo inteiro e preguem a boa-nova a todas as pessoas” (Mc16.15, NBV) e em outros textos que constrói  um fundamento bíblico sólido, incontestável para essa sublime atividade.

Esse trabalho nem sempre é fácil. Quais as principais dificuldades que os missionários enfrentam no campo?

O trabalho com povos indígenas tem características próprias, e o missionário precisa estar ciente disso. É um contexto transcultural e, algumas vezes, monolíngue. Aprender a cultura e a língua de um povo não é fácil. É impossível transmitir os conceitos basilares do Evangelho sem uma imersão profunda na cultura e na língua.

Isso demanda sacrifício, muito trabalho, erros e desânimo. Existe o aspecto do isolamento, dos lugares de difícil acesso, da falta de conforto e de recursos. Além desses fatores, há ainda a perseguição implacável contra os missionários que atuam entre os povos indígenas.

Somos acusados de genocidas, etnocidas, destruidores de culturas primordiais, e esses falsos conceitos são ensinados nas escolas, direta ou indiretamente. Dessa forma, um grande preconceito contra os missionários tem sido disseminado em todas as instâncias.

Atualmente, quantas tribos já foram alcançadas no Brasil? E quantas não?

A MNTB trabalha com 50 etnias indígenas no território nacional. Porém, contando com as outras agências missionárias, são mais de 240 tribos que já tiveram alguma experiência de evangelização, mesmo sem resultados perenes.

Ainda há mais de 100 tribos sem presença missionária, além dos povos isolados, sem ou com pouquíssimo contato, que somam entre 30 a 50 grupos, com presença marcante no norte do Brasil. São grupos pequenos, com 100 membros, no máximo, e estão condenados à extinção pelos que defendem o isolamento dessas comunidades.

Segundo pesquisas científicas,

qualquer grupo pequeno que continua em isolamento se autodestruirá física e culturalmente. Muitos, por exemplo, se casarão entre si, pois o parentesco acaba sendo reduzido, a consanguinidade trará deformidade entre os recém-nascidos que, por costumes internos de determinados grupos, acabam sendo mortos, isso é fato.

A cultura, em um círculo pequeno, limita muito o desenvolvimento, o livre pensar, e faz com que aspectos importantes sejam perdidos para sempre. Manter o povo isolado verdadeiramente é um genocídio.

Quais são os trabalhos que desenvolvem nas tribos alcançadas?

Enquanto se aprende a cultura e a língua, é desenvolvido um relacionamento constante e pertinente ao povo: ajuda nas áreas de saúde, desenvolvimento comunitário (plantação, educação, auxílio no comércio com vizinhos, cooperativas, documentação etc.).

Se não há o Novo Testamento na língua da tribo, é planejada a análise da língua e a descrição do alfabeto. Enquanto alguém trabalha na tradução, outros se dedicam à alfabetização na língua materna para futura transição para o português.

Quando se alcança o nível 3 no aprendizado da língua, que vai de 1 a 5, o ensino cronológico da Bíblia é iniciado, incluindo o pré-evangelismo.

De que forma percebem a melhoria na qualidade de vida dos indígenas após a chegada da assistência missionária?

A melhoria da qualidade de vida é visível: a saúde, de um modo geral, o cuidado com os dentes, a água potável, o saneamento básico, a alimentação. A educação evita a exploração no comércio e no trabalho pelos vizinhos não-indígenas no comércio e no trabalho.

MNTB atua somente em solo brasileiro?

Não. Também temos missionários no continente Africano, em Senegal e Moçambique, e na Indonésia, com etnias na região.

Quantas pessoas estão envolvidas com a MNTB?

Somamos mais de 460 colaboradores. Todos os membros da MNTB são missionários de tempo integral.  

O que o cristão que tem chamado missionário precisa ter em mente antes de engajar-se em um trabalho como esse? De que forma pode se preparar?

O preparo deve começar em sua igreja. Tem de comunicar à liderança o que está no coração e servir à igreja local com zelo.

Outro passo importante é informar-se sobre um treinamento específico que esteja de acordo com o seu chamado. A MNTB tem um treinamento completo que capacita o obreiro a ir a qualquer etnia ao redor do mundo.

Quais cursos preparatórios oferecem? Como são? Onde estão localizados?

Temos treinamento teológico com duração de dois anos, cursado nas dependências do Instituto Bíblico Peniel, que completou 60 anos de existência em 2016.

Há também o curso missiológico e linguístico, de um ano e meio, ministrado no CTMS (Centro de Treinamento Missionário Shekinah) que fica na cidade de Vianópolis (GO).

Além desses cursos presenciais, o missionário é acompanhado constantemente por consultores nas áreas de aprendizado de língua, plantação de Igreja e tradução do Novo Testamento.

Onde estão localizadas as bases e sedes da MNTB?

A sede geral da MNTB fica em Anápolis-GO, onde também está localizada a sede regional do Setor Leste. A sede regional do Setor Oeste fica em Manaus, com uma demanda muito grande de trabalho, pois é no norte que está a maioria das tribos.

Temos bases de apoio para os trabalhos locais espalhadas em várias cidades que estão próximas às áreas indígenas.

De que forma um interessado pode ajudar?

Os missionários da MNTB não recebem sustento da missão. Eles são sustentados por suas igrejas e por indivíduos interessados no projeto de evangelização dos povos indígenas.

O interessado pode participar por meio do sustento de missionários e também contribuindo para os projetos da missão. Há projetos de tradução, de desenvolvimento comunitário e manutenção do lar dos missionários jubilados. Todo apoio é bem-vindo.

É só o interessado entrar em contato com a MNTB e enviar a sua oferta. Ela irá exatamente para o fim proposto pelo doador. Para saber mais, acesse: http://www.novastribosdobrasil.org.br/.

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