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Antônio Carlos Costa, fundador da ONG Rio de Paz, em entrevista exclusiva à MC

Autor fala em profundidade sobre seu novo livro que será lançado no primeiro semestre de 2015

Teólogo, pastor, jornalista e fundador da ONG Rio de Paz, instituição engajada na redução das violações dos direitos humanos, Antônio Carlos Costa é um cristão comprometido com a causa do Evangelho.

Personalidade ativa na busca de políticas e mecanismos voltados para a diminuição da desigualdade social e que viabilizem melhores oportunidades para os moradores de comunidades pobres, esse ativista social de 52 anos, esposo e pai, também escritor, tem muitas histórias para contar, especialmente aquelas vividas em seu contato com o submundo do Rio de Janeiro, das prisões, favelas e no dia a dia com parentes de vítimas da violência. 

Convidado recentemente para entrar para o time de autores da Mundo Cristão, Antônio terá seu primeiro livro lançado com o selo da editora ainda no primeiro semestre de 2015.

Na obra, que está em fase de produção, o autor compartilha algumas de suas experiências e aborda as bases intelectuais teológicas que deram origem ao movimento Rio de Paz.

Em entrevista exclusiva à equipe de Comunicação da MC, ele fala em profundidade sobre o livro, seu objetivo e importância para a sociedade brasileira. Confira! 

Mundo Cristão: Qual é o principal objetivo da obra?

Antônio Carlos Costa: O grande objetivo do livro é mobilizar os cristãos para o combate à pobreza por meio de ações que visem diminuir a desigualdade social, atacar violações dos direitos humanos que são praticadas contra os menos favorecidos e pressionar as autoridades públicas no sentido de implementarem políticas que criem oportunidade de vida para os moradores de comunidades pobres. 

MC: Por que escrever sobre esse assunto? Qual tipo de ferida (social/espiritual) a publicação pretende cutucar? E como se propõe a sará-la?

ACC: O livro emerge das minhas experiências com o Brasil underground, especialmente com o submundo do Rio de Janeiro, como o meu contato com as prisões, favelas e parentes de vítimas de violência. Isso tudo aumentou o meu nível de indignação com a capacidade do Estado, da Sociedade e da Igreja lidarem com tamanha indiferença o sofrimento de tantos. O livro vem recheado por muitas das experiências que eu vivi nas favelas e em celas de prisões superlotadas, consolando vítimas de violência. O que eu espero com essa obra é mostrar o quanto a Igreja e a sociedade devem interferir nesse controle social sobre o poder econômico e o poder político, a fim de que estes não usem do poder de que dispõem para oprimir, mas sim que estejam envolvidos com o trabalho de viabilização da vida do pobre. 

MC: De qual forma o senhor acredita que esse livro vem ao encontro das necessidades da igreja e da sociedade em nossos dias?

ACC: A minha esperança se dá em razão dele ser rico em experiências de campo, algumas trágicas, outras bem-sucedidas, que mostram o quanto nós, enquanto cidadãos, podemos fazer para mudar essa realidade. A linguagem não é técnica, é fácil. Os capítulos são todos inspirados em textos das Sagradas Escrituras, então há muita exposição de texto bíblico associado também à luz que advém de autores não cristãos que discursam sobre direitos humanos, pobreza, desigualdade e poder. Também penso que vai ao encontro das necessidades da Igreja em razão das denúncias que faz quanto à indiferença de tantos. Não é um livro meramente teórico. O último capítulo, especialmente, é dedicado àquilo que nós podemos fazer de modo concreto para aumentar o nível de igualdade social no planeta. 

MC: Qual é o público-alvo da obra?

ACC: Olha, essa pergunta é muito importante, porque esse não é o livro que eu tenciono contar a historia do Rio de Paz, a história da nossa militância e o que nós vivenciamos de 2007 para cá. Esse livro tem um viés cristão. Eu acredito que ele possa atingir uma audiência mais ampla, porque algumas das minhas propostas são propostas que até ateus implementariam, desde que eles conheceçam os fatos referentes à miséria do planeta. Agora, é claro que o enquadramento intelectual é o evangelho, ele que dá a base e o fundamento de toda reflexão. Eu estou partindo de pressupostos cristãos, então o livro é escrito prioritariamente para cristãos, o que não é coisa pequena, já que só no nosso país são 45 milhões de evangélicos, segundo as estatísticas, sem falar nos católicos. A minha esperança é que se alcançar esse público-alvo, sua mente e coração, isso pode desencadear um processo no país com uma ação de outros ministros e outros pensadores e ativistas sociais. Pode fazer com o que esse povo se mobilize, e com isso mobilizar outros setores mais amplos da sociedade. 

MC: Quais os assuntos transversais da obra?

ACC: Nela, eu falo muito sobre o grande alvo e sobre a meta mais ampla da política, que é aumentar o nível de liberdade do ser humano, a fim de que eles possam desenvolver o seu potencial, seja para a arte, ciência, tecnologia, literatura, esporte e para o exercício da cidadania. O grande sonho do livro é que a Igreja e a sociedade lutem para que sejam formadas estruturas que possibilitem o desenvolvimento do potencial humano criado à imagem e semelhança de Deus. Também dialogo sobre a miséria e pobreza à luz da ética do Antigo e do Novo Testamento e como que a Igreja é chamada para cuidar do necessitado. É muito evidente à luz da Bíblia que a Igreja é chamada para dar voz ao sem voz e dar visibilidade ao invisível. Falo sobre o lado escuro do poder político e econômico e como ambas formas de poder têm contribuído para a exploração, para a miséria de milhões e para o aprofundamento da desigualdade social. 

MC: Há alguma citação bíblica base para o livro? Qual (is)?

ACC: Eu estou trabalhando especialmente em cima do livro de Tiago, principalmente o capítulo dois, que fala a respeito do modo da Igreja lidar com o pobre e acerca do rico que explora os menos favorecidos. As passagens centrais são Tiago 2:1-7, Tiago 5:1-6, 1 Timóteo 6:6-10;17-19. Além disso, uso passagens de profetas maiores e profetas menores. O livro está repleto de textos da Bíblia, afinal, sou um ativista social, líder de ONG, que faz trabalho jornalístico, mas que tem como principal chamado a proclamação dos textos das Sagradas Escrituras. 

MC: Se pudéssemos elencar algumas palavras-chave sobre a obra, quais seriam?

ACC: Ah, primeiro seria pobreza. Enquanto houver pobre no planeta estaremos diante de um grande problema moral, uma questão ética para ser enfrentada pela Igreja que afeta a vida como um todo.  As outras são poder e riqueza e as implicações éticas de você ter dinheiro. Além dessas, acredito que caberiam: a missão da igreja, amor, Jesus Cristo, seu evangelho, manifestação de rua e lobby.

MC: Qual o seu diagnóstico sobre a igreja/sociedade brasileira no que diz respeito às ações voltadas à assistência aos necessitados?

ACC: Nós passamos por uma crise gravíssima que eu chamo de banalização da vida humana. Esse é hoje o traço mais humilhante e mais grave da nossa cultura. Ocorrem graves violações dos direitos humanos, pessoas permanecem na miséria e o povo não se indigna, não se perturba, as pessoas não gritam. Isso está fora e dentro da Igreja. A vida humana não tem valor. Nós permitimos que, por exemplo, o sistema prisional esteja com quase 600 mil pessoas em praticamente regime de campo de concentração e isso não preocupa ninguém, ou muito poucos. O drama dos excluídos, dos sertanejos, dos favelados. Isso ainda não toca a alma da maioria dos cidadãos e, como a pregação do evangelho não está curando o novo convertido (ou o suposto novo convertido) desse mal cultural, o problema se encontra presente dentro da Igreja. 

MC: O que o levou a engajar-se em ações sociais?

ACC: O que me levou foi o evangelho. Foi o conceito bíblico de dignidade humana e o a compaixão que o Espírito Santo implantou em meu coração, de tamanho suficiente para me fazer agir. E o estopim disso tudo foi a violência do Rio de Janeiro. Foi a minha indignação com a letalidade, com os homicídios. Isso me levou então a, em 2007, começar manifestações de rua para despertar a sociedade, a mobilizar os meios de comunicação e bater no poder público. 

MC: O que é Rio de Paz para o senhor?

ACC: O Rio de Paz é uma ONG que tem como objetivo fazer a defesa dos direitos humanos, erguer a voz e gritar onde quer que a dignidade e a santidade da vida humana não estejam sendo respeitadas. É um movimento com foco na redução da pobreza e das mortes violentas, na elevação da qualidade da administração pública no Brasil, em projetos sociais nas favelas e nas manifestações com forte apelo midiático. 

MC: Quais foram as maiores vitórias da ONG?

ACC: São muitas vitórias, por exemplo, o número incontável de cristãos e não cristãos lutando pela defesa do direitos humanos. Nos trouxe muita alegria saber que, no ano passado, muita gente foi para rua por causa da influência exercida pelo Rio de Paz. Projetos sociais que agora estão sendo implementados, movimentos que estão sendo formados, pessoas que encontraram inspiração em nós. A criação da primeira delegacia de desaparecidos no Rio de Janeiro foi uma conquista nossa. O fim das carceragens da polícia civil e diversas campanhas que nós iniciamos e que se espalharam pelo Brasil. Ver o nosso trabalho se espalhando na China, África, Ásia e Europa, sendo destaque nos jornais americanos, exportando para o planeta o modelo de protesto pacífico. 

MC: E quais são os próximos desafios?

ACC: Os desafios de agora são: diminuir a taxa de assassinato do Brasil, que está em uma media de 55 mil por ano e exercer maior controle social sobre os três poderes da república. Nós queremos também colaborar para a diminuição da desigualdade social através de projetos sociais nas favelas. O nosso desejo é que o Rio de Paz esteja presente na maior parte das favelas do Rio levando educação, esporte, qualificação profissional e despertando a consciência do pobre para o exercício da sua cidadania, empoderando-o e dando a ele a consciência dos seus direitos e dos mecanismos que a democracia lhe proporciona para a expressão da sua justa indignação. 

MC: Qual a mensagem que o senhor gostaria de transmitir por meio de sua vida e ministério?

ACC: Que só existe uma palavra, uma única, que serve de fundamento para a felicidade humana e esta palavra se chama Deus. Ninguém falou sobre esse Ser como Jesus Cristo falou. É isso que quero proclamar até o ultimo dia da minha vida. A nossa existência, sem o Ser infinito e pessoal que ofereça sentido à nossa vida é um absurdo. E ninguém até hoje soube revelar a beleza desse ser como Jesus Cristo fez.

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